terça-feira, 24 de dezembro de 2019

O CENTENÁRIO DE UM HOMEM

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1917-2017
CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES 
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998)
Jornalista, Educador, Advogado, Político

  

PORQUE CELEBRAR
O CENTENÁRIO DE NASCIMENTO
DE CÂMARA TORRES


“Há homens que lutam por um dia, e esses são bons;
há homens que lutam por um ano, e esses são melhores;
há aqueles que lutam por muitos anos, e esses são muito bons;
Porém há os que lutam por toda a vida: estes são os imprescindíveis.”

Bertold Brecht
(1898-1956)

O centenário de uma personalidade, importante para a História, para a Vida Social e a Cidadania Política de uma Comunidade, de um Estado, de um País, constitui uma Efeméride. Uma data digna de celebrações, registros, reflexões, participações, colaborações, sobre o lugar e a contribuição deste Homem para o seu Tempo. Celebrar a sua vida e a sua obra significa atualizar os valores positivos e enriquecedores do Bem, da Justiça e da Democracia, da Liberdade, da Fraternidade e da Solidariedade, nos quais ele cria, praticava e difundia. Assim estaremos renovando, fazendo contemporâneos, recriando e, especialmente, cultuando um patrimônio de dons e dotes que ele semeou, com fé e amor, e que frutificaram entre os seus contemporâneos, entre os que tiveram a ventura de conviver com a sua notável e doce pessoa, sua reta e afirmativa conduta, seus notáveis feitos, seu integérrimo e inquebrantável caráter. E, mais ainda, apreendendo esse patrimônio de ideias, de pensamento, de atitudes dignas, edificantes, enriquecedoras, que honram e enobrecem as searas públicas que militou: o Jornalismo, o Magistério, a Advocacia, a Política. Em todas se comportou como um estudante e praticante da Ciência e um apóstolo da Vida e do Bem.

José Augusto da Câmara Torres, o “Câmara Torres”, o “Doutor Câmara”, o “Doutor José”, o “Câmara”; ou o “Zé Augusto” como o tratava sua namorada, mulher, mãe dos seus filhos, conselheira, secretária, companheira da vida inteira, a Professora Gertrudes Nóbrega da Câmara Torres, a Dona Tudinha, e, também, os seus amigos de infância e juventude – foi um desses homens especiais, raros, um ser elevado e simples, erudito e popular, culto e humilde,  um coração com pernas”, como definiu um lavrador de Rio Claro; ou “o amigo certo das horas incertas”, como o qualificou um paratyense; ou “uma alma irmã, limpa e generosa”, como repetia sempre um famoso pescador da Ilha Grande, de Angra dos Reis. Para os que o conheceram e com ele conviveram, um verdadeiro, precioso e produtivo Homem Público que fez dos seus ofícios profissionais de Jornalista, Educador, Advogado e Político, criações e atos de vida, de construção, de trabalho, sempre preocupado com a felicidade, o bem-estar, do outro, do próximo, seja ele seu eleitor ou não, admirador, desconhecido, correligionário, leitor, cliente, amigo, adversário ou concorrente, em qualquer campo de atividade. E, acima deste ou daquele, perseguia, sempre, o entendimento, a harmonia da coletividade, da comunidade a que servia. Câmara Torres foi um Político, na mais alta acepção civilizatória, que levou ao extremo a ciência, a técnica, a arte, a sua capacidade de compreender e realizar, de servir, de jamais ser servido ou privilegiado ou recompensado pelo que não merecia; que radicalizou, com sabedoria, carisma e liderança, a sua virtude de doação, retidão e fidelidade aos seus representados, na busca do crescimento humano, socioeconômico e cultural das comunidades, onde estava integrado.

Eu acredito que todo filho deveria fazer o que estou fazendo, seja quem tenha sido o seu pai. Não importa se seu pai tenha sido Presidente da República, um operário, um diplomata, um modesto servidor público, um grande empresário, um biscateiro, um bancário, um comerciante, um artista, um professor, um amolador de facas, um ajudante de pedreiro. Considero importante o registro para a honra, a autoestima, a História da Família, da cidade, da comunidade, do País. Mesmo que o assento não passe de uma página de caderno escolar.

Para mim, Marcelo, seu filho, o quarto de sua descendência e o varão mais velho, ele foi um Homem, um progenitor, um educador, além da paternidade e da consanguinidade, muito mais que o maior da galeria dos Homens Públicos que conheci. Esteve acima de todas as suas admiráveis virtudes e naturais pecados. Certa vez, escrevi e proclamei: “Meu pai foi meu primeiro mestre, essencial, precípuo, permanente, vital. Durante toda a sua existência. Exemplo de vida, exemplo de homem. Imperfeito, falível. Princípio, valor, sêmen, luzeiro. Referência para viver, para ser homem. Divergimos, muitas vezes, nas circunstâncias, ao nível conjuntural, opiniático, secundário, periférico, metodológico. Convergíamos nos valores, nos princípios, nos fundamentos, nas razões e causas últimas das cousas. Éramos semelhantes e diferentes. Eu era seu filho. Eu sou seu filho”.

Marcelo Câmara
(Marcelo Nóbrega da Câmara Torres)
Jornalista, historiador, escritor, editor, consultor cultural e empresarial.



CÂMARA TORRES,
UMA VIDA INTEIRA DE IDEIAS E OBRAS:
ESTUDO, TRABALHO, DOAÇÃO, SERVIÇO.

CÂMARA TORRES: UM HOMEM PÚBLICO (*)

Marcelo Câmara


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O dístico “Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte” me soa aos ouvidos desde a infância. Primeiro, no lar dos meus avós paternos, José Antunes Torres, nascido em Touros, e Maria da Câmara Torres, de Santana do Matos, ouvia sempre, não a entidade, mas os nomes dos vultos, em outros contextos sociais, que iluminaram esta Casa: Pedro Velho, Alberto Maranhão, Juvenal Lamartine, Ferreira Chaves, Vicente de Lemos, João Avelino, Francisco Carlos Pinheiro da Câmara, Tavares de Lyra. Depois, na casa de meus pais, os caicoenses José Augusto da Câmara Torres e Gertrudes Nóbrega da Câmara Torres, alguns desses nomes se repetiam e outros estreavam na minha memória: José Augusto Bezerra de Medeiros, Nestor Lima – o “Presidente Perpétuo”, Aluízio Alves, primo distante de meu pai, Eloy de Souza, Manoel Rodrigues de Melo, Nilo Pereira, Veríssimo de Mello.

Luís da Câmara Cascudo, o homem, o gênio, era o mestre quase cotidiano, a leitura recorrente, o mais ilustre da nossa família, que meu pai conheceu na infância, com quem esteve durante toda a vida, com quem dialogava e a quem venerava desde menino.

Minha mãe foi sua aluna na Escola Normal de Natal. Contava que quando o Professor Cascudinho falava ao ar livre, se a chuva caísse, ninguém arredava pé. Com Câmara Cascudo, meu pai e eu nos correspondíamos sem frequência, porém até os tempos que antecederam a partida do maior dos potiguares. Não tive a graça de estar com ele pessoalmente. Assinava cartas e cartões a meu pai assim: “seu fiel admirador”, “seu veterano admirador”. Certa vez, depois de ler um trabalho meu de Folclore, escreveu a meu pai: “... movimento, cor, comunicação, simpatia. De tal roseira, tal flor”. A mim se dirigia desta forma: “Marcelo Câmara, jovem confrade de vanguarda” ou “jovem colega Marcelo Câmara”. E arrematava: “afetuosamente, seu admirador legítimo, Luís da Câmara Cascudo”.

Meus três mestres na maioridade biológica e nos primeiros cometimentos como jornalista e escritor: Luís da Câmara Cascudo, Mário Quintana e Nelson Rodrigues. Três humanistas inteiriços a me dizerem da vida, do homem e do mundo. Cascudo, o doutor em povo, o gênio que descobriu o Brasil; Quintana, o poeta de todas as coisas; Nelson, o dramaturgo do cotidiano e da paixão. Depois, vieram se somar ao trio, Gilberto Freyre, autor da primeira e mais valiosa sociologia sobre o Brasil; Rubem Braga, o maior prosador da Língua Portuguesa do Século XX; e Darcy Ribeiro, o antropólogo que amava o Brasil. Cascudo, Quintana e Nelson: o conhecimento da alma e dos gestos humanos através do próprio homem, sua pequenez e continência, seus desejos e seus vôos, seus imponderáveis e erráticos caminhos. Aos três dediquei meu livro de estréia, editado, pela primeira vez, em 1985: Crítica à Cultura Brasileira – uma reflexão sobre manifestações e universos culturais na sociedade brasileira. O que mais me fascina em Cascudo não são somente os temas do homem e das gentes, suas raízes, motivos, formas e trajetos, que a tudo ultrapassa e transcende.

Fantástica, espantosa mesmo, é a escritura cascudiana: uma linguagem artística, literária, uma dicção muitas vezes poética, outras com humor, fazendo ciência, que pensa, cogita e enuncia, gera conhecimento, conhece o real. Isto parece paradoxal, quando se sabe que a linguagem da ciência não prescinde da exatidão, da precisão, da concisão, da objetividade, da clareza.

Cascudo faz ciência com estilo solar, primoroso, raríssimo, sem se valer da linguagem fria e árida do texto técnico e científico. Utilizando-se naturalmente da metáfora e de outros recursos da linguagem literária, da prosa elevada, da linguagem poética, sugerindo e provocando a dúvida, a reflexão e o sonho – Cascudo é correto, é preciso, é claro, é exato, é real, é científico, é verdadeiro, dando auto-crivo epistemológico a cada descrição, a cada análise, a cada crítica, a cada assertiva.

Discurso simultaneamente denso e delicioso, seminal e fascinante, que faz uma cabal inteligência, profunda, das atitudes e fatos humanos, dos fenômenos e processos antropossociais, históricos, políticos, econômicos. Poucos cientistas foram artistas como Cascudo, o texto belo e perfeito, um texto de ciência que enuncia e emociona, expressa e explica, significado e significante na unidade que diz e convence. Lembro-me de poucos que podem se aproximar dele. Entre nós, talvez Gilberto Freyre, Anísio Teixeira. Mais contemporâneos, um Darcy Ribeiro. Nos textos técnicos, o genial arquiteto Lúcio Costa, um belo texto. No exterior, os escritos filosóficos de Maritain e de Sartre.

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Num passeio de olhos pelos anais do Instituto, além de Luís da Câmara Cascudo, vislumbro muitos varões da árvore dos Câmara, todos descendentes do Tenente Manoel Raposo da Câmara, morgado português da Ilha de São Miguel, do Açores, que aqui chegou no início do Século XVIII e se casou com uma natalense: o Sócio-Fundador Francisco Carlos Pinheiro da Câmara, Anfilóquio Carlos Soares da Câmara, Adaucto Miranda Raposo da Câmara, meu tio-avô Aprígio Soares da Câmara, meu pai, José Augusto da Câmara Torres. Das greis dos Nóbrega e dos Torres, outros, certamente, tiveram aqui assento.

Meu tio-avô, Aprígio Câmara, natural de Santana do Matos, onde hoje é nome de rua, foi Sócio Correspondente do Instituto. Lecionou no Rio Grande do Norte e na Paraíba. Foi diretor da Escola Normal de Mossoró em 1925. Ainda jovem, migrou para São Paulo, onde também ensinou e se bacharelou em Direito. Tornou-se um dos maiores advogados brasileiros, com grande prestígio na elite paulistana. Foi amigo muito próximo de Olegário Mariano e de outros intelectuais e artistas paulistas. Aprígio Câmara e Câmara Cascudo foram grandes amigos, fraternais, próximos. Corresponderam-se dos anos 1940 aos anos 1960. Guardo cartas nas quais Cascudo o trata de “querido primo”. Em outras, leio os tratamentos: “Aprígio magnificente”, ”Meu coração”, “Conde da Câmara, Grande Primo!” e até um inusitado “Minha Flor”, que Cascudo explica a Aprígio: “Você é a única flor masculina”. Aprígio viabilizou uma das viagens de Cascudo Portugal e África, dando-lhe o apoio de amigos que tinha nos dois continentes.

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Ilustres consócios, minhas senhoras, meus senhores, para saudar o aniversário desta insigne Casa de Labor e de Beleza, ilustres consócios, minhas senhoras, meus senhores, para saudar o aniversário do Instituto, venho, no meu ingresso como Sócio-Correspondente, evocar o nome e a memória de um homem público, que, por toda a vida, encarnou o espírito que alimenta e conduz esta entidade, e pelo qual ela se reconhece e se justifica: a liberdade de pensamento e de expressão, o livre e universal acesso à Cultura, o serviço à comunidade. Venho, nesta noite festiva, evocar a memória, a trajetória, o pensamento e a obra, de um verdadeiro Homem Público: Câmara Torres, jornalista, educador, advogado e político, Sócio Correspondente  deste sodalício, falecido em 1998. Meu pai. Meu pai que foi meu primeiro mestre, essencial, precípuo, permanente, vital. Durante toda a vida. Exemplo de vida, exemplo de homem. Imperfeito, falível. Princípio, valor, sêmen, luzeiro. Referência para viver, para ser homem. Divergimos, muitas vezes, nas circunstâncias, ao nível conjuntural, opiniático, secundário, periférico, metodológico. Convergíamos nos valores, nos princípios, nos fundamentos, nas razões e causas últimas das cousas. Éramos semelhantes e diferentes. Eu era seu filho. Eu sou seu filho.

Venho vos falar de um Homem Público, o caicoense José Augusto da Câmara Torres. Mas não cinjo o conceito de “homem público” àquele que, apenas e ocasionalmente, ocupa cargo ou função no Estado. Seria reduzir a dimensão de um verdadeiro Homem Público, no seu real significado sociológico e político. Falo do cidadão que faz da sua vida, da sua existência, uma missão, um dever para o outro, um trabalho para os outros, um contínuo construir para o povo, para a sociedade. Ora como líder, ideólogo e propagador de idéias, causas e condutas, ora como seu representante e defensor, em quaisquer fóruns, com ou sem mandato formal. Um servidor das gentes, um promotor, um arregimentador do Bem e da Paz, da Harmonia e da Felicidade coletiva. Um Homem Público tem uma Vida Pública, vida operosa, participativa, transparente, por todos repartida, acompanhada, fiscalizada, julgada cotidianamente. Vida pública significa consciência, responsabilidade, serviço, doação, construção.

Venho vos falar de José Augusto, um menino pobre, nascido no Caicó a 22 de junho de 1917, o terceiro do casamento do telegrafista José com a dona de casa Maria, chamada Liquinha. Em março de 1917, o casal muda de Angicos para o Seridó, pois o pai, José Antunes Torres, recebera o encargo de instalar e inaugurar a estação dos Correios e Telégrafos do Caicó. Magro, esquálido, mirradinho, José Augusto era um milagre, sobrevivente de uma prole de nove filhos, dos quais somente três vingariam. Os outros seis falecem recém-nascidos, dias após os partos de Dona Liquinha. O nome “José Augusto” foi uma homenagem ao líder caicoense José Augusto Bezerra de Medeiros, então Deputado Federal.

O Doutor Joaquim Ferreira Chaves, à época o político de maior prestígio popular no Estado, um dos fundadores desta Casa, e sua mulher Alexandrina, foram os padrinhos de José Augusto na cerimônia na Matriz de Caicó, representado pelo Coronel Celso Dantas, homem que levou o cinema falado para Caicó em 1936. Os mesmos padrinhos de Câmara Cascudo.

Como aquele menino pequeno e frágil, num lar rude e pobre, com adversidades de toda ordem, como veremos, um menino que vai para a escola somente aos nove anos de idade, revela-se, precocemente, uma inteligência produtiva, um talento para as letras, a oratória e o jornalismo, uma liderança política, um homem público ainda na puberdade?

Por quais sendas, qual poderosa fé, que ideais santos, que sagas transformam aquele sertanejozinho míope e sem protetores na selva fluminense e carioca, oprimido por uma educação familiar severíssima, numa das mais brilhantes personalidades da vida cultural e política do Estado do Rio de Janeiro no Século XX?

Com dez anos de idade, José Augusto ingressa no 1º ano elementar do Grupo Escolar Senador Guerra. Três anos depois, estava no 1º ano do Curso Complementar na mesma escola. O interesse do menino pela História e pela Política manifesta-se desde então. No dia 3 de maio de 1930, aos doze anos, José Augusto faz o primeiro discurso. Na escola, num texto crítico e ousado questiona, com dados e argumento, a data, então celebrada como sendo a do Descobrimento do Brasil. Contesta-a e afirma o 22 de abril como a “data verdadeira” da chegada de Cabral. Na oportunidade, também, faz uma convocação ecológica em defesa das árvores e das nossas “riquezas naturais”. Comemorava-se o “Dia da Natureza”. Ali, Ilustres Confreiras e Confrades, começa a vida pública de Câmara Torres. O menino se lança à comunidade escolar como um representante, um arauto, um símbolo dos seus colegas. A crítica, os anseios, a voz. E, ao longo de 1930, 31 e 32, surgem outras orações do garoto franzino, magérrimo, loquaz, elétrico, que surpreendia a todos pela inteligência, iniciativa, dinamismo. José Augusto tornara-se o orador oficial da escola em todas as cerimônias cívicas, sociais e culturais. A oração do Dia da Bandeira, de formatura dos complementaristas, foi feita na presença do Professor Nestor Lima, então Chefe da Instrução Pública. As orações do menino eram críticas, arrojadas, políticas, convocando a todos para a reflexão, a mobilização dos espíritos e das ações.

Dois fatos, creio, ratificam e formalizam o início da vida pública de Câmara Torres, ainda na infância. O primeiro fato: um ano após o primeiro discurso, José Augusto, com treze anos, funda O Ideal da Juventude, jornal mensal, literário e noticioso, “órgão dos interesses do Grupo Escolar Senador Guerra”, dirigido ao povo de Caicó, que o menino passa a dirigir e onde assina os editoriais, artigos de fundo e reportagens. O segundo fato: no final de 1931 quando o Interventor Hercolino Cascardo visita Caicó, quem irá saudá-lo, em nome da infância estudiosa e da mocidade das escolas do município, será aquele menino jornalista, que escreve e discursa, um agitador político, um animador cultural.

Nesse dia, José Augusto prova vinho pela primeira vez. Entretanto, o emblemático da saudação a Cascardo é o fato de o menino não ler um texto de sua autoria, mas do Doutor Renato Celso Dantas, um importante advogado da cidade. Observem, prezados confreiras e confrades, minhas senhoras, meus senhores, ele fora escolhido para ler a oração em nome de todos, uma oração da comunidade que, ao contrário de outras, não fora escrita por ele.

O Ideal da Juventude, depois do terceiro número, lança uma revista especial o 26 de Julho para celebrar, nessa data, o primeiro ano da morte de João Pessoa. E, ainda na terceira edição assume a secretaria do jornal Gertrudes Nóbrega, a Tudinha, de tradicionalíssimo clã seridoense, moça que, dez anos depois, se casará com o diretor José Augusto Torres. (O “Câmara”, da mãe, ele agregará ao nome na maioridade). O número 7 de O Ideal da Juventude, de 19 de novembro de 1931, traz, na primeira página, um belo texto de Luís da Câmara Cascudo sobre o Senador Guerra, Francisco de Brito Guerra, patrono do Grupo Escolar. Cascudo escreve o trabalho a pedido de José Augusto e adverte: “Esta crônica é de propriedade do O Ideal da Juventude, a quem ofereço os meus direitos autorais”. Começava aí uma amizade de mais de sessenta anos. Dez números são editados de O Ideal da Juventude. O último circula em 11 de fevereiro de 1932, com a notícia da ida de José Augusto para Natal, onde, dizia a notícia, “vai continuar os seus estudos”.

Em fevereiro de 1932, com quatorze anos, José Augusto é matriculado como aluno interno no 1º ano ginasial do Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas. Na sua turma, Eugênio de Araújo Sales, de Acari, hoje Cardeal Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que então anunciava: “Eu vou ser padre, eu quero ser padre”; e o natalense Túlio Tavares, músico, colega de Oriano de Almeida, e irmão do grande maestro e compositor Mário Tavares. O destino fez com que eu e o Túlio, colega de classe de meu pai, nos conhecêssemos em Brasília, nos anos de 1970, e fôssemos, juntos, assessores do Ministro do Trabalho. O menino do interior chega a Natal, vê gelo pela primeira vez e logo se destaca: é o orador na inauguração da praça de esportes do colégio e, em setembro, ele está na primeira página do terceiro número do O Sete de Setembro, jornal anual do colégio, assinando o principal artigo. Fala, ainda, em nome dos internos, antes da disputa de um jogo de futebol e nas comemorações da Proclamação da República.

Na véspera do Natal de 1932, a família embarca para o Rio de Janeiro. No dia 30 de dezembro de 1932, às 8 horas da manhã, José Augusto pisa com o pé direito no solo carioca, rompendo pelo Armazém 7 do Cais do Porto. Vai morar em Niterói. Em março, ele está matriculado como aluno externo no segundo ano ginasial do Colégio Salesiano Santa Rosa e, em junho, ainda com quinze anos, funda e passa a dirigir o jornal Espumas, com a colaboração de Dayl de Almeida, que dele irá se tornar o “irmão xifópago”.

Dayl, depois, será professor, sociólogo, deputado estadual e federal. O jornal Espumas mudou o nome para A Ordem em 1937 e circulou até fevereiro de 1938. Foi um jornal político, católico, nacionalista, que se engajou no movimento Integralista, constituindo-se no primeiro e mais importante veículo do gênero, e o de mais longa vida no Estado do Rio de Janeiro.

De 1933 a 1943, no Colégio Santa Rosa, no Curso Preparatório de Direito no Liceu Nilo Peçanha e na Faculdade de Direito de Niterói, Câmara Torres se destacou numa geração inteira de jovens fluminenses, católicos e nacionalistas, que viriam a ser, depois, ilustres personalidades da história política e cultural do Rio de Janeiro. Eram anos de efervescência intelectual, idealismo e ideologização entre liberais, comunistas e fascistas, movimentos religiosos, militância política. Câmara Torres funda e preside por cinco mandatos a Academia São Francisco de Sales, braço cultural da Congregação Mariana Nossa Senhora Auxiliadora, do Colégio Salesiano Santa Rosa, a que pertence. Palestras, conferências, discursos, debates, em vários fóruns literários, culturais, políticos, no Rio e em outros Estados. Ao seu lado, além de Dayl, líderes católicos, intelectuais como Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde.

Em 1939, o acadêmico de Direito José Augusto da Câmara Torres começa a lecionar Português, Literatura Brasileira e Portuguesa, História do Brasil e História da Civilização em Niterói, José Augusto está na Associação Potiguar, no Rio, ao lado de Edílson Cid Varela, publicando na Revista Potiguar, artigos sobre a sua terra. Publica também em Caicó. Mas, antes, em 1936 e 1937, volta ao Rio Grande do Norte, a Natal, Baixa Verde, Touros e a Caicó, viagens sentimentais, para abraçar parentes e amigos, e, claro, ver Tudinha Nóbrega, a menina do Grupo Escolar, sua secretária do jornal O Ideal da Juventude, moça que, pressentia, seria a escolhida do seu coração. É agraciado com duas condecorações: a Medalha do Cinqüentenário da República e a Medalha do Centenário de Sylvio Roméro, ambas em virtude de conferências que profere e de comemorações que promove.

1940 é um ano de decisões para o universitário José Augusto. Leciona, escreve em vários jornais e revistas. Em junho, chega às livrarias de todo o País, Imortais, o seu primeiro livro, com Dayl de Almeida, uma reunião de conferências dos dois sobre temas da História, Literatura, Política e Religião. O leitor da editora que autoriza a publicação é o grande José Cândido de Carvalho. A obra foi muito bem recebida pela intelectualidade e pela crítica de então. Câmara Cascudo na sua Acta diurna, de A República, escreve:

José Augusto da Câmara Torres, que conheci recém-saído dos cueiros, começou a escrever numa idade em que a curuja de papel é a suprema tentação. Dirigiu jornais no Caicó, tendo a metade do tamanho de qualquer tipógrafo. Nasceu com a paixão do livro, a sedução espiritual do pensamento, em suas formas mais belas, nobres e altas. (...) Há (nele) todos os elementos para um Historiador cuidadoso, equilibrado, dispensando comodismos e guizos, pisando, com lentidão e autoridade, o caminho áspero e maravilhoso que leva o Homem para todas as dimensões de sua atividade no mundo.”

Em abril de 1941, envia à Gertrudes Nóbrega no Caicó, uma obra literária de sua autoria da qual foi editado um único exemplar, encadernado, com 45 páginas: O poema do meu amor, vinte poemas em prosa para Tudinha, por causa de Tudinha, cuja musa é Tudinha. Volta ao Caicó em dezembro de 1939 para ficar noivo e pedi-la em casamento. É nomeado redator do Serviço de Propaganda e Turismo do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em dezembro de 1941, casa com Tudinha Nóbrega em Caicó e vai morar em Niterói.

1942 marca uma nova fase da vida pública de Câmara Torres. Designado Técnico de Educação do Estado, o então professor e acadêmico de Direito vai chefiar a 1ª Região Escolar, com sede em Angra dos Reis, no Extremo Sul do Estado, abrangendo este município, Paraty, Mangaratiba e Rio Claro. Efetiva-se no cargo através de concurso público de provas e títulos, com defesa de tese, oral e escrita.

Em 1943, forma-se em Direito e vai residir em Angra dos Reis, com a mulher e a primeira filha, recém-nascida. Angra dos Reis, a região era o castigo dos Inspetores de Ensino, isolada do resto Estado, longínqua, sem estradas, sem comunicações, com pouquíssimas escolas funcionando precariamente em imóveis alugados, mínimos e deficientes serviços públicos essenciais. A malária grassava impune em toda a região. Câmara Torres era o primeiro Inspetor com a coragem de residir em Angra. Cria, constrói, instala, amplia, moderniza toda a rede pública de ensino na região. Nunca o ensino público na região atingiu níveis tão altos de qualidade e eficácia. Darcy Ribeiro, após ler um trabalho que publiquei sobre a obra de meu pai na Educação Pública, exclamou: “Ele foi um Anísio Teixeira do Sul Fluminense”.

Ao tempo que se dedica à Educação Pública, Câmara Torres advoga e é jornalista na região. Prossegue produzindo e publicando artigos e ensaios de Literatura, História, Política, Educação, entre eles, a crônica única e preciosa, Um fim de vida, publicada em 1952 na revista Bando, da Casa Euclides da Cunha, de Natal, sobre a morte do grande Alberto Maranhão, ocorrida em Angra dos Reis em 1944, quando Alberto editava um jornal, plantava banana e fabricava cachaça em Paraty.

Em 1945, com a redemocratização do País, Câmara Torres ingressa na política. Em 1954, se candidata e se elege, pela primeira vez, Deputado à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A vida pública, a sua militância política começara na infância. Agora, o mandato popular, resultado de eleições, representante prioritariamente do povo do sul do Estado do Rio de Janeiro. Até aqui, o jornalista, o educador, o advogado. Agora, também o dirigente e militante partidário, o parlamentar, o legislador. Foram quatro mandatos de Deputado Estadual, até 1971, votações crescentes, liderança social, política, incontestável, consagrada por mais de trinta anos, que fizeram dele “o maior e mais importante político da região do extremo sul fluminense no Século XX”.

Recebeu dos sul-fluminenses votações maciças, que chegaram a ultrapassar, em certas eleições, 80 por cento dos votos válidos de determinados municípios. A casa de Câmara Torres, primeiro em Angra, depois em Niterói, sempre foi uma "embaixada" da região, aberta a gentes de todas as classes sociais e cores políticas.

Fidelíssimo às comunidades que o elegiam dedicou ao Estado do Rio de Janeiro, com elevada dignidade e correção, mais de sessenta anos de vida pública. Como Deputado, legislou intensa e continuadamente, pugnando pelo ensino público de qualidade e pela valorização dos professores. Até a sua morte, foi "o deputado das professoras", "o político da educação pública", um batalhador por condições dignas de trabalho para os profissionais da educação. O parlamentar Câmara Torres atuou e legislou destacadamente na área social, em favor da região que representava, especialmente na Educação, Cultura, Saúde, Saneamento, Transportes, Energia, Telecomunicações, Justiça, Segurança, Turismo e Ecologia. Da sua chegada à região em 1942, até os anos de 1980, não houve iniciativa ou conquista, pública ou privada, que beneficiasse o povo da região sul fluminense, que não contasse com a sua ação política, a sua liderança ou participação decisiva. Hoje, a região é um dos mais importantes pólos econômicos e turísticos do País. Câmara Torres foi o estruturador de toda essa realidade de desenvolvimento sócio-econômico e cultural.

Cristão, solidário, generoso, Câmara Torres jamais deixou de ouvir ou atender qualquer um do povo que o procurasse, fosse ou não seu eleitor ou amigo. Na política, teve adversários, jamais inimigos. Na advocacia, contendores que o admiraram, nunca debatedores odientos. Ocupou as Secretarias de Estado do Interior e Justiça e de Serviços Sociais, e foi membro do Conselho Estadual de Educação.

Em 1970, ao término do seu último mandato, pagava o financiamento da casa que residia com a família, não possuía patrimônio, porém muitas dívidas e oito filhos, cinco deles nascidos em Angra dos Reis. Considerado um dos maiores especialistas e executivos em Educação, aposentou-se como Consultor Técnico de Educação. Causídico por mais de cinqüenta anos, era considerado um dos mais brilhantes advogados do País, destacadamente no campo do Direito Civil.

De 1931 até a sua partida em 1998, portanto, durante sessenta e sete anos ininterruptos, Câmara Torres publica, na Imprensa fluminense, carioca e potiguar, em jornais, revistas técnicas e literárias, centenas de artigos, reportagens e ensaios sobre a nossa realidade social, política, econômica e cultural. Política, História, Educação, Geografia, Direito, Administração, Literatura, Religião e Folclore. Muitos textos sobre o Rio Grande do Norte. E mais: crítica literária, de cinema e de teatro; crônica, conto e poesia. Prefacia obras de História, Literatura e Política. Pronuncia centenas de conferências, orações acadêmicas, de paraninfo e discursos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Norte. Após o casamento em Caicó, Câmara Torres retorna apenas três vezes a Natal e a Caicó: em 1965, em 1976 e em 1984. Em uma delas, leva à Municipalidade o brasão de Caicó, iniciativa sua, obra do seu amigo, o heraldista Alberto Lima.

Criou e presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil em Angra dos Reis e criou as de Paraty, Rio Claro e Mangaratiba. Pertencia à Academia Valenciana de Letras, à Associação Brasileira de Escritores e ao Instituto Histórico e Artístico de Paraty, do qual é um dos fundadores. Era Sócio Correspondente deste Instituto e do Ateneu Angrense de Letras e Artes. Possuía os títulos de Cidadão Fluminense do antigo Estado do Rio de Janeiro, de Cidadão Honorário do Estado do Rio de Janeiro do atual Estado do Rio de Janeiro e cidadania de cinco municípios fluminenses. Foi, enfim, um importante e luminoso personagem da Educação, da Cultura, da Política Fluminense nos últimos sessenta anos do século XX. Morreu pobre, sem bens patrimoniais a inventariar, com o risco de perder a casa em que morava, em virtude de ter sido avalista de dívida alheia. Deixou para seus filhos e a geração que o sucedeu um legado moral de idéias e obras, de honra e probidade. Câmara Torres é visto por correligionários e adversários políticos, como "uma legenda moral de probidade e trabalho, de doação às causas populares, que fazia dele um homem público por excelência, honrado, leal, destemido e produtivo, com inestimáveis serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro". Os cientistas políticos poderão ver Câmara Torres como "um verdadeiro homem público, integérrimo no caráter e nas ações, com uma inexcedível capacidade de doação, um cidadão e um político com uma dimensão humana e social insuperável". Angra dos Reis homenageou a sua memória com o Teatro Municipal Câmara Torres. Paraty com a Casa de Cultura Câmara Torres. Em 2011, o município de Rio Claro, RJ, inaugurou, em Passa Três, a sua mais moderna e bem equipada escola, o CENTRO DE ENSINO MUNICIPAL DEPUTADO CÂMARA TORRES, construído com recursos da União (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB). O Aeroporto de Angra dos Reis, RJ, construído no início dos anos 1950 por Câmara Torres, com recursos próprios, passará a se chamar, em breve, AEROPORTO CÂMARA TORRES. Mangaratiba e Niterói se preparam para celebrá-lo.

Prezadas Confreiras, estimados confrades, minhas senhoras e meus senhores, Persiste, afinal, a minha indagação vestibular:

Como aquele menino pobre, frágil, oprimido, do Caicó, se transformou num grande Homem do Estado do Rio de Janeiro? Eu vos respondo com algumas palavras de significado: fé, coragem, amor, estudo, talento, doação, trabalho. Câmara Torres provou o adágio de Polydoro: O homem probo tudo faz honestamente. E viveu a sentença de Cícero: O homem não nasceu só para si, mas para a pátria, mas para os seus.

Câmara Torres fez do Bem e da Justiça um dever, uma arte, uma vida. Muito lhe deve o Estado do Rio de Janeiro. Construiu o seu tempo, é orgulho dos seus filhos, honrou o Rio Grande do Norte. MUITO OBRIGADO.


(*) Trechos selecionados e revistos da conferência-ensaio pronunciada por Marcelo Câmara, a 29 de março de 2007, no Salão Nobre do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, em Natal, RN, por ocasião de sua posse como Membro Correspondente do IHGRN, no 105º aniversário da instituição cultural mais antiga e importante do Estado. Texto original e na íntegra publicado nas Revista do IHGRN  e na Revista do Ateneu Angrense de Letras e Artes.


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