segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

VERDADES POUCO CONHECIDAS SOBRE POLÍTICOS BRASILEIROS

O exilado Celso Furtado – O consagrado economista e professor paraibano, nascido em Pombal, Celso Monteiro Furtado (1920-2004), expedicionário da FEB, Bacharel em Direito e Doutor em Economia pela Sorbonne; criador e duas vezes Superintendente da SUDENE, Diretor do então BNDES, primeiro Ministro do Planejamento do Brasil, intelectual consagrado internacionalmente, viveu exilado em Paris, lecionando e pesquisando na Sorbonne e em outras universidades e instituições dos EUA e da Europa, no período de 1965 a 1979. Quando era visitado por brasileiros em Paris, recebia-os, acreditem, falando francês. É autor de Formação Econômica do Brasil, uma das obras mais importantes, livro-referência, para quem quer conhecer o País. Inteligente, culto, mestre brilhante, pensador do Brasil e formulador da Economia, administrador notável – Celso foi um dos homens mais valorosos e vaidosos da História Política Brasileira. Com ele disputaram o Troféu Rempli de soi-même no Século XX, com conteúdo, estofo, justificadamente, e, por isto, vaidosos podiam ser: Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso e Paulo Brossard. Medíocres, “cheios de vento”, “fazendo gênero”, Aloysio Chaves (Senador PDS-PA, 1979-87) e Fábio Feldman (Deputado Federal PMDB e PSDB-SP 1987-95). Entre aqueles, os "justicados", e estes, os "vazios", está o "punhos de renda" Luiz Vianna Filho, intelectual valoroso, de obras, é verdade, porém, para mim, sem os louros e as loas tão altas que lhe foram dadas em vida e que ainda são cantadas em sua memória. Darcy Ribeiro não escondia a sua vaidade. Disse-me mais de uma vez: “A minha vaidade é resultado da minha fragilidade, da minha pequenez, das minhas carências. Eu preciso de carinho, de afagos. Por isto solicito tanto reconhecimentos, gestos ternos, carícias de toda natureza, inclusive verbais. Eu sou extremamente carente”. 

Amaral, Ministro de Jango,
entrega a Reforma Administrativa.
(Foto: www.educaja.com.br)
O marinheiro Amaral Peixoto – O niteroiense Ernâni do Amaral Peixoto (1905-89), engenheiro-geógrafo, Almirante da Marinha do Brasil, foi um político com vasta e riquíssima biografia. Revolucionário em 1930, ex-Interventor no Estado do Rio de Janeiro, de 1939 a 1945, depois, filiado ao PSD, exerceu mandatos de Deputado Federal Constituinte em 1946, Governador do RJ eleito diretamente (1951-4), Ministro de Estado da Viação e Embaixador nos EUA no Governo JK, Ministro do TCU, Ministro Extraordinário da Administração do Governo João Goulart, Deputado Federal pelo MDB e, finalmente, duas vezes Senador, a primeira pelo MDB, a segunda, “biônico”, pelo PDS. Era conhecido e ridicularizado como “Amaral Pé Enxuto”. Segundo seus adversários, apesar de Almirante da Marinha de Guerra do Brasil, jamais se aproximou ou se banhou no mar ou embarcou em um navio, baleeira ou canoa, exceto a barca Rio-Niterói e os barcos chamados “Avisos” da Marinha para viagens político-eleitorais até a Baía da Ilha Grande. Puro humor de bases falsas e depreciador. Pilhéria desmoralizante. A verdade histórica é outra. 

Ernâni do Amaral Peixoto, além de participar de importantes atuações em terra, como militar, e, também a bordo de vasos de guerra, em movimentos tenentistas, por influência do irmão, também militar da Marinha, Augusto do Amaral Peixoto Júnior, revolucionário em 1924 e em 1930, esteve embarcado várias vezes, em exercícios navais, missões de paz e de conflitos armados, desde que se formou na Escola Naval, no Rio, em 1927. O revolucionário, de 1922, 1924 e 1930, então Capitão-de-Mar-e-Guerra, Protógenes Guimarães, depois Ministro da Marinha e Interventor no RJ, com quem Amaral travou contato nos levantes tenentistas, foi, sem dúvida, além do irmão Augusto, o seu grande líder militar e, depois, o padrinho político de Amaral junto a Getúlio Vargas, antes até do Estado Novo. 

Sua primeira viagem de instrução, ainda como guarda-marinha, no ano que recebeu o espadim, deu-se a bordo do cruzador Bahia. No ano seguinte, foi promovido a segundo-tenente e serviu no encouraçado Minas Gerais. Em 1929, primeiro-tenente, e, em 1930, encarregado geral dos aspirantes embarcados no Minas Gerais. Foi imediato do navio mineiro Maria do Couto, participando de operações de adestramento com forças do Exército. Retornou ao Minas Gerais, ficando ligado à direção de tiro junto com Lúcio Meira e Henrique Fleiuss, sendo também secretário do encouraçado, sob o comando de Silvio Noronha. Nesta época, participou de articulações que deflagraram a Revolução de 1930, que depôs Washington Luís e alçou Getúlio Dornelles Vargas (1884-1954) ao poder. 

No Governo Provisório, foi designado Ajudante de Ordens do comandante da Flotilha de Contratorpedeiros, Almirante Otávio Perry, indo servir no cruzador Barroso. Também foi Ajudante de Ordens do Almirante Augusto Burlamaqui, Comandante-em-Chefe da Esquadra, acompanhando-o quando ele foi nomeado Diretor-Geral do Arsenal de Marinha. Em seguida, cumpriu missões como Oficial da Marinha do Brasil na Liga das Nações, na Suíça, como Assistente Naval de José Carlos de Macedo Soares, ao lado dos Almirantes Américo Ferraz e Castro e Álvaro Vasconcelos, e, em outras representações em eventos, na Itália. Após essas missões político-diplomáticas, Amaral foi enviado para a base naval de Spezia, próxima a Gênova, na Itália, embarcando no contratorpedeiro italiano Leone, onde fez observações técnicas e estudou os sistemas de direção de fogo. 

Com a eclosão da Revolução Constitucionalista, em 9 de julho de 1932, Amaral voltou ao Brasil e seguiu, como voluntário, para a frente de combate no setor Paraty,RJ-Cunha,SP, onde foi artilheiro, sob as ordens do irmão Augusto, comandante do batalhão da Marinha no setor, e dos capitães Nelson de Melo e João Alberto Lins de Barros. Coincidentemente, o patronímico “Amaral” é tricentenário em Paraty, rezando a tradição local que o ex-Governador do RJ tem as raízes paterna (Peixoto) e materna (Amaral) no Município Monumento Nacional, pois o avô paterno de Amaral Peixoto, Pedro Evaristo de Almeida Peixoto, foi Presidente da Câmara Municipal do Município, de 1913 a 1915. E muitos paratyenses com o sobrenome “Amaral”, se apresentam como parentes de Ernâni. 

Após a vitória das forças legalistas em 1932, Amaral Peixoto, promovido a capitão-tenente, é designado para servir como Ajudante de Ordens do Comandante da Primeira Divisão Naval, Almirante Ferraz e Castro, seguindo a bordo do navio capitânia da Divisão, o Rio Grande do Sul, para juntar-se a outros vasos de guerra, a fim de bloquear o tráfego do Rio Amazonas e de seus afluentes, garantindo a neutralidade do Brasil no Conflito de Letícia, entre Peru e Colômbia. No final de abril de 1933, por sugestão do Ministro da Marinha, Protógenes Guimarães, a Getúlio Vargas, Amaral Peixoto é nomeado para o cargo de Ajudante de Ordens do Presidente da República, em substituição ao Capitão-Tenente Celso Pestana, morto em acidente automobilístico. Neste cargo, Amaral faz o Curso de Aperfeiçoamento em Armamento, na Escola de Especialização da Marinha. Ernâni, em 1939, casou-se com Alzira Sarmanho Vargas, a Alzirinha, filha de Getúlio, tornando-se seu genro e poderoso conselheiro. 

Como se vê, Amaral Peixoto, passou parte da sua carreira militar embarcado e se aperfeiçoando nas técnicas e artes navais. Ainda em 1933, influenciado pelo irmão Augusto, eleito Deputado Constituinte em 1933, pelo Partido Autonomista, Amaral ingressa na política, filiando-se à agremiação. 

O resto é Política e está nos livros de História e nas enciclopédias. E aí começa outro longo e plural percurso do personagem. Agora, desembarcado. Destaque para a atuação de Amaral Peixoto como interlocutor presencial do Presidente Roosevelt, dos EUA, representando Vargas, nas tratativas da entrada do Brasil na Segunda Guerra contra os países do Eixo. Também influenciou a decisão de Vargas de o Brasil lutar ao lado dos Aliados, além de se pronunciar publicamente e participar de manifestações populares, em pleno Estado Novo, contra o nazifacismo. 

Roberto: talento, liderança e competência política.
(Foto: www.adorocinema.com)
O boêmio e andador Roberto Silveira – Roberto Teixeira da Silveira (1923-61), natural de Bom Jesus do Itabapoana, RJ, o mais jovem Governador do Estado do Rio de Janeiro, eleito em 1958, por uma inimaginável coligação PTB-PSP-UDN contra o PSD de Amaral Peixoto, que tinha como candidato Getúlio Moura, foi um dos mais autênticos e populares líderes políticos do século passado da História do Brasil. Antes de governar os fluminenses, foi duas vezes Deputado Estadual, a primeira como Constituinte em 1946, Secretário do Interior e Justiça do Governador Amaral Peixoto e Vice-Governador de Miguel Couto Filho. Seria, para muitos, “o futuro Presidente da República”, após João Goulart, se o golpe não ocorresse. 

Além de um Homem Público brilhante e extraordinário administrador, era um político muito próximo do povo, gostava de conversar com todos, ouvia muito. Homem de Cultura, fascinado pelas Artes em geral, sua personalidade tinha um aspecto que poucos conheciam. Era um boêmio, mesmo sem álcool, à la Mário Lago, apaixonado por música popular, folclore e serestas. Adorava reunir-se com amigos, mesmo durante o seu governo, em viagens oficiais, para conversar, participar de serestas e ouvir os poetas dizer poemas. Muitas vezes, e eu fui testemunha em algumas, esperava que as comitivas oficiais se recolhessem nas cidades que visitava e, com alguns assessores de maior amizade, “fugia” para a boemia, retornando pela madrugada. Mas isto, poucos viriam a saber. Porém, na hora de cumprir a agenda na manhã seguinte, oito ou nove horas, a que horas fosse, estava lá o Governador Roberto Silveira, impecavelmente trajado, com excelente humor, o seu insuperável carisma, sempre muito simpático, acessível a todos, para cumprir a agenda oficial, seja para fazer uma visita técnica ou político-institucional, participar de uma reunião de trabalho, presidir uma inauguração de uma obra de seu governo etc. 

Outra curiosidade de sua personalidade era a impressionante velocidade com que andava pela Capital, quando necessário, e cidades do interior do RJ, cumprindo compromissos em eventos, onde a sua presença era protagonista. Poucos, entre eles, meu pai, Câmara Torres, à época Deputado Estadual, seu grande e fraterno amigo, que, mesmo com a baixa estatura, conseguia acompanhar o passo de Roberto Silveira. Roberto tinha a rapidez no caminhar tão rara, quanto à inteligência, sensibilidade e capacidade política.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

COMO O CONSUMIDOR BRASILEIRO É BOBO! - 2ª parte

(Foto:questaolegal.blogspot.com.br)
Todos nós somos enganados no comércio, todos os dias. Não falemos nem de falsas promoções, publicidades enganosas. Mas somente da rotina nas compras, cotidianas, normais, regulares. São engodos, trapaças, mentiras, armadilhas, truques, mágicas, crônicas e epidêmicas, institucionalizadas pelo mercado, recepcionadas pela mídia, das quais somos vítimas. São preços de boa-fé, nos quais acreditamos, crentes de que estamos pagando mais barato, “levando vantagens”. Mas, na verdade, estamos sendo ludibriados. Alguns exemplos:

OS FAMOSOS “DESCONTOS” DAS FARMÁCIAS E DROGARIAS – A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – órgão do organograma do Ministério da Saúde – e, aqui lembremos Ariano Suassuna no clássico Auto da Compadecida, quando Jesus, no personagem negro Manuel, diz que o inferno está perto de virar “repartição pública, que existe, mas não funciona” – a ANVISA, repito, não tabela os preços dos medicamentos. É uma prática que, em tese, incentiva a livre concorrência, própria do capitalismo, e beneficia o consumidor. Mas a ANVISA estabelece o preço máximo a ser cobrado ao consumidor final. Pois bem. Ao comprar um medicamento em qualquer farmácia ou drogaria do País, quando você manifesta a sua surpresa ou indignação pelo preço cobrado, o balconista ou até mesmo o gerente, pago para dizer isto, “esclarece”: “Nós já estamos dando um desconto de tanto, não podemos dar mais. O preço é X, mas a mercadoria, para o senhor (ou para a senhora); é Y, tantos por cento mais barato, um desconto que fazemos para os nossos clientes...”MENTIRA, EMBUSTE, CRIME CONTRA O CONSUMIDOR”. O preço X, do qual fala o funcionário, é O PREÇO DA EMPRESA DIANTE O PREÇO MÁXIMO DA ANVISA, NÃO HÁ DESCONTO ALGUM. PURA FRAUDE! Essa empresa pratica o preço X. A outra, o preço W. A terceira, o preço K... e assim por diante. Não existe desconto algum, mas somente um preço praticado pela empresa, compulsoriamente abaixo do preço máximo fixado pela ANVISA. Se houver “desconto” será a diminuição em alguma percentagem sobre o valor do preço da empresa. Só conheço duas redes nacionais de drogarias, em cujas lojas, os gerentes estão autorizados a dar um real desconto para o consumidor, isto é, abater sobre o preço da empresa, um, dois, três, até cinco por cento. Portanto, NÃO ACREDITE EM “DESCONTO”. NÃO HÁ DESCONTO ALGUM. O QUE HÁ É O PREÇO DA EMPRESA. E PONTO FINAL.

“CHOCOLATE DE GRAMADO”, DE OUTROS LUGARES, ARTESANAIS, CASEIROS – Mentira. Pura fraude publicitária. A bela cidade gaúcha de Gramado, nunca fabricou chocolates. Nem outras, especialmente do Sudeste e Sul, cantadas em prosa e verso, como alternativas às grandes marcas que estão no mercado. O que se faz na Serra Gaúcha é uma CONFEITARIA DE CHOCOLATE, sobre um produto acabado, comprado das indústrias que, efetivamente, fabricam chocolate: as paulistas Nestlé, Mondelez (Lacta), Hershey´s Brasil (Bauduco e Visconti) e Pan; a mineira Kopenhagen; a gaúcha Neugebauer (a primeira fábrica de chocolates do Brasil, de 1891); as capixabas Garoto e Vitória; a baiana Chocolate Caseiro Ilhéus, entre outras poucas. E por que “poucas”? Porque nem todas as indústrias de chocolate produzem e podem fornecer chocolates como matéria-prima às imponderáveis linhas de confeitarias de chocolate. Isto é, fornecer chocolate em grandes barras ou tijolos meio-amargos ou “brancos”, ou chocolate em pó ou líquido (licores, flavours) que servirão de base a inúmeros produtos. Por que escrevo brancos entre aspas? Porque o “chocolate branco”, na verdade, não é chocolate, pois não possui cacau na sua formulação, na sua receita.

Saudades da carioca Bhering e da paulistana Sönksen, ambas desaparecidas, que produziam chocolates de alta qualidade: pureza, equilíbrio, delícias.

A princípio, é necessário saber que o chocolate nasceu entre os Astecas, e, por extensão, feito e consumido também pelos Maias, em tempos pré-colombianos, e, inicialmente, era uma bebida, exatamente o que a palavra asteca denominava:  xocoatl, tradução: “bebida amarga”. O cacau (cacaualtl) é uma riqueza nativa da Amazônia, do Brasil, que os índios nômades e o jupará ou “macaco da meia-noite”, um bichinho semelhante a um esquilo, após chupar as sementes dos frutos que caíam no solo das florestas, fizeram com que a riqueza chegasse até o México, atravessando toda a América Central. Cultivo tropical perene, a tradição, a Cultura Popular diz que o cacaueiro, a árvore do cacau, que foi “a árvore da vida” na civilização asteca, é delicada e generosa como um grande amor e a mulher amada: “Se bem cuidada, bem tratada, bem cultivada, ela estará sempre bela, frondosa, generosa, dá bons e doces frutos eternamente”. Entre os astecas, as amêndoas de cacau eram moedas. O chocolate era preparado com água, pimenta-da-jamaica, mel e baunilha. No século XVII, os espanhóis trocaram o mel pelo açúcar; no século seguinte, os holandeses criaram o chocolate sólido, em barras; e no século XIX, os suíços adicionaram leite ao chocolate.

Das amêndoas, diretamente, não é feito o chocolate, “o alimento mais completo que existe”, que foi o alimento dos norte-americanos nas duas grandes guerras, tem sido o farnel dos astronautas e dos atletas em todas as Olimpíadas. O caminho do fruto ao chocolate é longo, artesanal, trabalhoso, sofisticado, exige ciência, técnica, percorre várias fases, que podem ser resumidas, no universo rural, na colheita, fermentação e secagem das amêndoas. Elas são processadas, beneficiadas, nas próprias fazendas pelos cacauicultores.  Depois de colhidos nas lavouras, nos cacauais, os frutos dourados dos cacaueiros (theobroma cacao = “alimento dos deuses”, na denominação científica do sueco Linnaeus), são quebrados, as sementes, retiradas manualmente e a polpa que as envolve serve para preparação de doces, geléias, refrescos, sorvetes, ou fornecida ao gado, misturada à ração. Em seguida, as amêndoas passam pelo processo de fermentação, fase fundamental para definição do aroma e sabor do cacau, matéria-prima do chocolate. A secagem ideal das amêndoas, outra fase importantíssima do beneficiamento, deve ser feita ao sol, extirpados fungos e insetos, também retiradas cascas e excessos com o pisoteio a pés descalços pelos trabalhadores, dois processos efetivados em “barcaças”, grandes planos de madeira com tetos móveis sobre trilhos para protegê-las das chuvas.  Ao final do beneficiamento, as amêndoas são armazenadas, acondicionadas em sacos de cinco arrobas cada (60 kg).

Antes de seguirem direto aos portos para embarque e exportação, ou destinadas às indústrias de cacau, amostras das amêndoas são levadas à classificação, postas em categorias de acordo com a sua pureza natural, consistência, forma, cor, peso médio e aroma, por órgãos oficiais ou credenciados. Nas indústrias, setor de alta complexidade e especialização de grandes plantas, máquinas e equipamentos, as amêndoas passam pela torra, moagem e prensagem e são transformadas nos derivados do cacau: pasta ou massa de cacau, primeiro e principal produto, um “cacau integral” ou “líquor”; manteiga de cacau (gordura do cacau), extraída da prensagem da pasta; torta de cacau, blocos do que restou da massa prensada, que retém, ainda, trinta por cento de manteiga; e o pó de cacau, que é a torta pulverizada.

Com esses derivados a sofisticada indústria chocolateira, também altamente especializada em equipamentos, pessoal, donas de receitas exclusivas, algumas centenárias, com segredos industriais milionários etc., fabrica as várias linhas de chocolate (sólidos, em pó e líquidos) e os inúmeros chocolates, nas suas variadas formas, sabores, composições e texturas. Assim, basicamente, o chocolate negro é resultado da mistura da massa de cacau, da manteiga de cacau, do leite e do açúcar; o “chocolate” branco, apenas manteiga de cacau, leite e açúcar; a torta e o pó de cacau são matérias-primas para uma infinidade de chocolates sólidos e líquidos, flavours, achocolatados etc.

COMPOSIÇÃO DO CHOCOLATE - Os chocolates de primeira linha (Godiva, belga, por exemplo; os chocolates alemães, franceses, ingleses e do leste europeu) são resultado de um blend, composto de “cacau Bahia” (originário do Sul da Bahia, aonde chegou em 1746, vindo do Pará), cacau da África ou cacau da Amazônia (ambos com grande teor de gordura) e o “cacau fino do Equador”, fruto de uma cepa nativa, existente também na Venezuela, Colômbia e alguns países caribenhos, de uma árvore ainda mais delicada e vulnerável que o cacaueiro nativo, tradicional. Os chocolates de segunda e terceira linha usam, além de muito açúcar, excessiva quantidade de gorduras vegetais em substituição à manteiga de cacau, ingrediente nobre na formulação do bom chocolate. A leguminosa algaroba, natural do Peru, existente em regiões áridas, inclusive no Nordeste brasileiro, tem sido usada por alguns países (Israel é um exemplo), na tentativa de transformá-la em sucedâneo do cacau na fabricação do “chocolate”. Sem êxito, pois, apesar de alguns traços similares, não consegue tomar o lugar do prestigioso alimento.

Existem fábricas de chocolate em Gramado, Canela, Petrópolis, Itatiaia, Itaipava, Nova Friburgo, Poços de Caldas, Campos do Jordão e outras cidades turísticas, geralmente serranas ou estações d’água? Claro que não. O que existe nesses lugares são confeitarias de chocolate e lojas de chocolate. Mas, perguntariam alguns: quer dizer que não existe “chocolate caseiro” em lugar nenhum? Claro que sim. Mas são indústrias domésticas, pequenas, mínimas, nas fazendas, nas cidades das regiões produtoras da Bahia, Espírito Santo e Amazônia, que fabricam produtos realmente caseiros, isto é, singelos, sem nenhum grau de sofisticação quanto a sabor ou sabores, praticamente massa de cacau integral, amêndoas sem peles, trituradas, torradas e moídas (chocolate amargo), depois misturadas ao leite e ao açúcar. Ou licores de cacau, que é o chocolate puro na sua forma líquida, acima de 35 graus. A exceção é o Chocolate Caseiro Ilhéus, da cidade do mesmo nome na Bahia, que, adotando o empirismo centenário do chocolate doméstico feito na maior região produtora do País, alia a ele alta tecnologia na fabricação de produtos.

O que essas confeitarias de Gramado e suas congêneres fazem é, após derreter os chocolates, desenhar e esculpi-los, criando formas e figuras que se transformam em produtos, definindo inclusive texturas. Aos chocolates meio-amargos comprados dos grandes chocolateiros adicionam e/ou misturam cereais, frutas, biscoitos, doces, balas, confeitos. Armazenam licores e outras bebidas alcoólicas em garrafinhas de chocolate etc.

O ALIMENTO MAIS COMPLETO – Portanto, ao comprar um chocolate, que não seja um Kopenhagen, o melhor do país, ou um Neugebauer, outra marca de excelência e qualidade, ou um Chocolate Caseiro Ilhéus – leia, na embalagem, a composição do produto, atente para as proporções de açúcar e de gorduras de soja e de outros vegetais. Prefira os produtos onde prevaleçam os derivados de cacau, o leite, os mínimos teores de açúcar e, baixos teores, de outras gorduras estranhas ao cacau. Se é saudável consumir os meio-amargos, por possuir menos açúcar, especialmente os diets, por outro lado, às vezes, essa redução é compensada pelo alto teor de gorduras. Os lights diminuem porcentagem de açúcar e gorduras, mas atente se a manteiga de cacau e os demais derivados (pasta/massa ou torta ou pó) estão presentes e se você não está ingerindo muitas gorduras vegetais hidrogenadas (gorduras trans). Por outro lado, não exagere, em uma única vez, no consumo da moda: alta quantidade de cacau, 50%, 60%, 70% em cada barra. O organismo pode reclamar.

O cacau é um alimento riquíssimo em nutrientes, muito denso, forte, contem: magnésio (mais que qualquer outro alimento), ferro (importantíssimo no nosso organismo), cromo (que balanceia o açúcar no sangue), anandamida (endorfina da felicidade, fabricada naturalmente pelo corpo humano, somente encontrada no cacau), theobromina (bactericida que elimina cáries dentárias), antioxidantes (o cacau é o alimento que contém a maior concentração no mundo), manganês (ajuda o ferro na oxigenação do sangue), zinco (fundamental no nosso sistema imunológico, fígado, pâncreas e pele), cobre (essencial ao sangue), vitamina C (o cacau supre em mais de 20 por cento as necessidades do organismo), feniletilamina (PEA, encontrado no cacau cru, produzido pelo nosso corpo quando nos apaixonamos e também importante para a nossa atenção) e serotonina, principal neurotransmissor do corpo humano.

Já o chocolate, primogênito do cacau, misturado ao leite e ao açúcar, contem mais de trezentas substâncias químicas que nos proporcionam prazer, bem-estar, nos fornecem concentração mental e energia. Além da maioria dos elementos encontrados no fruto cru e nas amêndoas beneficiadas, como escrevi acima, o chocolate, contem, ainda, os minerais: potássio, cloro, fósforo, cálcio e sódio, e as vitaminas A, B1, B2, B2, B3 e E.

O consumo per capita de chocolate no Brasil é de apenas 2,5kg por ano, um dos mais baixos do mundo, inferiores aos de todos os países das três Américas. Em todo o mundo, o chocolate é considerado um alimento, normalmente consumido numa pequena quantidade, uma barrinha após as refeições. Aqui, para nós, ele é uma “guloseima”, um supérfluo. Só comemos chocolate na Páscoa, Dia dos Namorados e Natal. E muito, exageradamente. Na década de 1980, minutei projeto no Congresso Nacional para introdução do “chocolate em pó” na merenda escolar e nos farnéis das Forças Armadas. Indefinidos e dissimulados lobbies conseguiram o arquivo da propositura. Também idealizei proposta legislativa para a fixação compulsória do prazo para consumo de qualquer chocolate ou achocolatado. O governo federal de então, sabedor da nossa intenção, felizmente, foi sensato e, mais rápido que o processo legislativo, normatizou a perecibilidade do produto. Hoje qualquer barrinha ou bala de chocolate traz as datas de fabricação e vencimento para consumo. Como vimos, o chocolate é um alimento muito forte, rico em nutrientes e digerido em quantidade pode em exagero ser laxante. Lembremos da nossa infância, do Licor de Cacau Xavier contra as constipações intestinais. Prove, além dos nacionais que recomendei acima, as barras com o máximo de 50% de cacau, meio-amargas, importados do Equador, que há alguns anos lotaram, com preços baixos, as gôndolas dos supermercados. Agora, andam meio sumidos. Chocolate com formulação bem equilibrada e com gosto de cacau.