quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

JUVENTUDE EM NITERÓI E NO RIO. O INTELECTUAL E O LÍDER.


CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES
1917  – 2017
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998)
Jornalista, Educador, Advogado, Político
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A MUDANÇA PARA O RIO

Às duas horas da madrugada do dia 24 de dezembro 1932, às vésperas do Natal, José, Maria, José Augusto e Marconi, embarcam no navio Itanagé, com destino ao Rio de Janeiro. Seis dias depois, às oito horas da manhã do dia 30, desembarcam em frente ao Armazém Cinco do Cais do Porto do Rio de Janeiro. A família deve ter se hospedado por um período em alguma pensão carioca, então Distrito Federal, pois somente a 10 de fevereiro, José Augusto chega a Niterói, para morar. O pai é transferido oito dias antes para a capital do Estado do Rio de Janeiro. Chegando a Niterói, a Família de José Antunes Torres, vai morar numa casa alugada na Rua Visconde de Sepetiba, 1.870, no Centro da cidade. Somente no final de 1933, José Augusto, Marconi e os pais mudam para a Travessa Trajano de Morais, nº 28, no Bairro de Santa Rosa.

A 15 de março, José Augusto, após ser matriculado, começa a frequentar o 2º ano do Curso Ginasial do Colégio Salesiano Santa Rosa. No colégio conhece quem viria a ser o seu maior amigo, amigo da vida inteira, Dayl do Carmo Guimarães de Almeida, Dayl de Almeida, que, com ele, havia de percorrer caminhos semelhantes, paralelos, na vida estudantil, na atividade católica, no jornalismo, na política. Eram conhecidos como “irmãos xifópagos”. Até nas famílias que formaram pareciam caminhar juntos: José Augusto foi pai de oito filhos, Dayl, de sete.

Na mais antiga instituição de ensino salesiano do País, José Augusto deu prosseguimento à educação religiosa, ampla, disciplinada, severa, conservadora, iniciada no Colégio Santo Antônio, em Natal, como era do gosto dos seus pais. No Santa Rosa, ele receberia as maiores influências na sua formação intelectual e religiosa dos Padres Antônio Lajes, encarregado do Externato, Emílio Miotti e Orlando Chaves, os dois último diretores sucessivos, e dos clérigos Jaime Martins e Felix Kozvara. Entre os professores leigos, destaque para Francisco Portugal Neves e Antonio Mendes.

O ESTUDANTE SALESIANO

No primeiro mês de aulas, março de 1933, entre 34 alunos, obtém o 1º lugar, mas com procedimento “Regular”, em Boletim assinado pelo então Diretor, Padre Emílio Miotti. Termina 1933. José Augusto conclui o 2º ano ginasial com média 82.

José Augusto, com o uniforme diário do Salesiano,
já matriculado no segundo ano ginasial, doze dias após chegar a Niterói,
vindo de Natal, RN.

  (Arquivo Marcelo Câmara)



10.6.1933. José Augusto no segundo ano Ginasial,
com o uniforme de gala do Colégio Salesiano Santa Rosa.

(Acervo Marcelo Câmara)

De setembro de 1934 a maio de 1940, circulou, quinzenalmente, A Folha ColegialÓrgão Quinzenal dos Alunos do Colégio Salesiano Santa Rosa, editada pelo Padre Antônio Lages. A cada final de mês a Folha divulgava os nomes dos melhores alunos externos e internos, de todas as classes. De março de 1933 a dezembro de 1936, período da vida escolar salesiana de José Augusto, este esteve sempre no Quadro de Menção Honrosa de sua turma. José Augusto não era o primeiro, mas, sempre, um deles, bem colocado, no topo da lista. O Padre Lages, que gozava de grande prestígio no Colégio e influência sobre os alunos, assina, a cada número, artigos de fundo, geralmente de primeira página, de caráter moral, de educação e orientação religiosa, além de textos sobre Língua Portuguesa e a Linguagem Brasileira, sempre sob o pseudônimo de Brasílio Marajá.

José Augusto foi um dos fundadores, em 1934, da Congregação Mariana Nossa Senhora Auxiliadora, do Colégio Salesiano Santa Rosa, integrou, várias vezes, a sua diretoria e participava intensamente de todas as atividades escolares, culturais e religiosas, da escola, da Basílica e da Paróquia N. Sa. Auxiliadora.


O primeiro cartão de visitas, aos quinze anos.

(Acervo Marcelo Câmara)

Em outubro de 1934, José Augusto e os irmãos Dayl e Lyad de Almeida fundam a Academia São Francisco de Sales, no Colégio Salesiano, que será o braço cultural da Congregação Mariana, que promoveria eventos culturais, de Arte, principalmente de Literatura e Música, bem como conferências e debates sobre Política, Economia, Sociologia e Filosofia e temas da realidade da época que ultrapassariam o território do Colégio, muitas realizadas no Teatro Municipal João Caetano, de Niterói, repercutindo na Capital Federal e vários pontos do País. Personalidades da Cultura, da vida fluminense, carioca e nacional, eram, regularmente, convidadas a participar de eventos na Academia. José Augusto viria a ser o Presidente, por várias gestões, a partir de 1937.

Marconi, o único irmão,
cinco anos mais moço que José Augusto,
também, em 1933, estudante do Colégio Salesiano Santa Rosa.

(Acervo Marcelo Câmara)

LIDERANÇA ESTUDANTIL,
CATÓLICA E POLÍTICA


O Colégio Salesiano Santa Rosa foi a principal plataforma de lançamento do menino José Augusto para a vida social, cultural, religiosa, para se tornar um dos protagonistas no cenário da capital fluminense e do Distrito Federal, dentro do rico movimento intelectual e intenso ativismo político da mocidade, que marcou a década de 1930. No Colégio, e a partir do Santa Rosa, é que José Augusto se conformou plenamente como uma vocação para o Jornalismo, a Literatura, a Oratória, a Política, o Associativismo estudantil, a criação e gestão de instituições religiosas e culturais.

Foi, nos eventos escolares, religiosos, gremistas e políticos, que se forjou, se plasmou, irreversivelmente, o homem de jornal, o conferencista e palestrante, o professor, o ativista católico e político, o militante, o ensaísta e escritor, o intelectual, a notável liderança estudantil. E, foi, também, no Colégio Salesiano Santa Rosa, que foram plantadas as sementes do futuro jornalista profissional, educador, advogado e político. Durante o período de dez anos, de 1933 a 1943, no Colégio Salesiano, no Curso Pré-Jurídico do Liceu de Humanidades Nilo Peçanha e na Faculdade de Direito de Niterói, as vocações se consolidaram e se realizaram. O homem plural, a personalidade criativa e produtiva, o estudioso, o pesquisador, o intelectual, o profissional dinâmico e proficiente, sempre contemporâneo, se fundamentam definitivamente.

A FUNDAÇÃO DE ESPUMAS
A HISTÓRIA DE UM SONHO IMPRESSO


Dayl do Carmo (o futuro “Dayl ou Dail de Almeida”) tinha um ano a menos que José Augusto (o futuro “Câmara Torres"). Ambos eram católicos fervorosos, de famílias, com educação e condutas católicas. José Augusto convocou Dayl: “Vamos fazer um jornal?” Dayl duvidou: “Mas como? Onde? Com que recursos?” José Augusto retrucou: “Vamos conversar, planejar, levantar custos. Juntos, conseguiremos”. Dayl concordou: “Então, vamos ao desafio”. Dayl explica: “Quando conheci o Zé, ele tinha quinze anos. Convidou-me para fazer um jornal. O Zé já sabia tudo de jornal: redigia, revisava, titulava, paginava, diagramava, editava... Até de oficina gráfica, tipografia, linotipos, ele entendia, conhecia de tudo, sabia tudo de jornal.” Dayl acrescenta: “Essa intimidade com o Jornalismo ele confirmou no perído de mais de cinco anos de vida do jornal. Não só escrevia e editava com maestria, como transitava entre as máquinas das oficinas com naturalidade, como alguém que conhecia muito bem aquele mundo de máquinas, linhas de chumbo, clichês, tipos, provas, placas etc.


 
Dayl de Almeida, aos dezesseis anos, o maior amigo da vida inteira.
(Acervo Marcelo Câmara)

A 5 de junho de 1933, é lançado o primeiro número de Espumas. O nome, escolha de José Augusto, é uma referência, e reverência, a Espumas Flutuantes, título do único livro publicado em vida por Castro Alves. O jornal é lançado com periodicidade quinzenal, num formato pequeno 26,8 X 18. Os primeiros números variam em regularidade temporal: mensal e bimensal. “José Augusto Torres” é o diretor; “Dail do Carmo”, o gerente; e "Oton Barros", o tesoureiro. Este último se formou em Medicina e foi um grande especialista das áreas da Oftalmologia e Otorrinolaringolia, com atuação em Niterói. Mais tarde, as áreas se divorciaram e Oton Barros passou a atuar somente na segunda.

José Augusto escreve os editoriais de Espumas, os artigos de fundo, assina textos sob pseudônimos, edita o jornal. Porém, desde o início, os três – José Augusto, Dayl e Oton –  puyblicam. No terceiro número do jornal, de 1º de setembro de 1933, o formato do jornal quase dobra, passa a ser um pequeno tabloide, e aparecem os primeiros anúncios: Casa Borges Importação –Exportação; Depósito de Retalhos das Fábricas Reunidas da Cia. Ind. Brasileira de Meias e Rendas – Tecidos em Geral; Hervanario Sto. Onofre – essas três empresas sediadas no Centro da cidade de Niterói. Leiteria N. Sa. Auxiliadora; Armazém Belga; Farmácia Costa; Quitanda Tira-Teima; Açougue Sto. Agostinho; Armazem Adelino – essas, do Bairro de Santa Rosa. Também aparece o Expediente: Espumas – Jornal Bi-mensal – Correspondência – Visconde de Sepetiba, 187 ou Prefeito Ferraz, 391 NITEROI”, certamente as residências de José Augusto e Dayl respectivamente. No 6º número, informa-se, pela primeira vez, o preço do exemplar avulso: “200 reis”. Na 10ª edição, de 27 de maio de 1934, a equipe do jornal se amplia com outros grandes amigos de José Augusto: Carlos Guedes é o Auxiliar; Alberto Grabowsky é o Tesoureiro no lugar de Oton; Witeldson Costa Reis é o Secretário. Esta é a atual Diretoria, informada até o nº 12 do jornal. Há, ainda, os colaboradores e incentivadores que a Direção do jornal considera valiosos, como o Clérigo Ênio Martins, bem como aqueles, religiosos e leigos, que, além de incentivar os jovens, publicavam assiduamente.


Talento e ousadia: aos quinze anos, José Augusto funda e lança
o segundo jornal da sua vida – Espumas.
Dayl é o gerente e Oton, o tesoureiro. No suplemento da 11ª edição,
a 3 de junho do ano seguinte, às vésperas do primeiro aniversário,
o jornal publica o poema Espumas, de um leitor, sob o pseudônimo de Mauzio,
dedicado “Ao brilhante menino-jornalista José Augusto”.

(Acervo Marcelo Câmara)

Espumas era um jornal católico, de linha política nacionalista, que exaltava a nossa História, a nossa Literatura, as Artes, seus vultos, a Educação de qualidade, universal e gratuita, a Cultura Nacional, as vitórias e o progresso da Nação Brasileira.

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

A “onda” integralista inunda o País, contaminando, principalmente, as camadas mais predispostas e vulneráveis: os católicos, os nacionalistas e os anticomunistas. A juventude, organicamente idealista, revolucionária ou reformista, adere, aos milhares, com convicção e ardor patriótico, político e religioso.

A 6 de setembro de 1933, o jornalista e escritor Plínio Salgado, fundador e presidente da Ação Integralista Brasileira – AIB – no seu périplo político-doutrinário por todo o País, pregando a ideologia e criando células de atividades com a marca do Sigma (“”), décima oitava letra do alfabeto grego que significaria “a soma dos valores”, símbolo da AIB – visitou o Colégio Salesiano Santa Rosa, onde fez uma efusiva e emocionante conferência. O impacto e a repercussão devem ter sido poderosos, pois levou José Augusto a anotar a visita no seu caderno de anotações, uma espécie de diário extraclasse, entre os fatos marcantes da sua vida até então, desde a sua entrada no Grupo Escolar em Caicó até aquela data.

José Augusto e Dayl haviam fundado Espumas, um jornal “nacionalista e católico”, quinzenário. A edição de 13.10.1933, do Jornal do Brasil – JB, do Rio de Janeiro, noticia o lançamento do jornal, divulgando o nome dos dois jovens, o primeiro como Editor, o segundo como Gerente. E mais Othon Barros como Tesoureiro. “Que Espumas saiba vencer galhardamente são os nossos votos” – estima o JB.

Assim, no início da década de 1930, a ideologia do Integralismo, nascida em Portugal e aqui concebida por Plínio Salgado, ia se construindo, se expandindo surpreendentemente em todo o País, especialmente entre quatro setores sociais: a Igreja Católica, os Conservadores, os Nacionalistas ou Patriotas e os anticomunistas. A Democracia Liberal e os Comunistas eram os principais inimigos. O Brasil e o Povo Brasileiro, antes de tudo, o culto às nossas origens (sem discriminações) e à nossa História; o amor à terra, a defesa intransigente da Família, da Cultura Brasileira, da Língua Portuguesa falada pelos brasileiros, das riquezas e potencialidades do País, a pregação da igualdade, independente de classe social ou econômica – eram motes de um discurso que convencia, cativava, estimulava milhares de cidadãos a cerrar fileiras na AIB, liderada por Plínio, “O Grande Chefe”, movimento que formava núcleos em centenas de municípios brasileiros de todos os Estados, em todas as capitais, na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, e Territórios Federais. Pregava o Estado Integral, totalitário, em bases sindicais, hierarquizado na disciplina de um partido único, com liberdade “encabrestada” aos valores, princípios e objetivos da doutrina e da ação política.

O lema “Deus, Pátria e Família” fascinava e cooptava vastas messes da juventude católica. Eram visíveis, raros, os que eram católicos praticantes e não aderiam à AIB. Também notáveis os que eram católicos praticantes e não eram de Esquerda e apoiavam a Aliança Nacional Liberal – ANL, oposta ao Integralismo, que reunia liberais, socialistas, marxistas e alienados ou indiferentes, cidadãos sem cultura ou informação política, opinião ou preferência ideológica ou partidária. Estes últimos, simplesmente, não eram militantes, simpáticos ou tangidos pelas ideias integralistas, nem suscetíveis às pregações da Esquerda.

Ao lado de Plínio, dois foram os principais ideólogos do Integralismo: o filósofo e jurista Miguel Reale e o historiador e escritor Gustavo Barroso, este considerado “porta-voz” do Movimento. Na verdade, havia vários segmentos entre os “camisas-verdes”, dos “plinianos” ou puristas, estes que rejeitavam qualquer tipo de racismo, aos antissemitas furiosos. A doutrina integralista, geralmente confundida com o Nazismo alemão, apesar de algumas manifestações e exterioridades assemelhadas (simbologia, iconografia), como a saudação (“Anauê”, que em tupi se entenderia como “Você é meu irmão”), organização quase militar, desfiles, bandeira, uniformes, braçadeira, adereços . Mas, na verdade, nada tinha dos preceitos de Hitler. “O problema é ético, e não étnico”, defendia Plínio. A ideologia perseguia o Estado Ético, “em que o Estado se subordinaria à Moral, e não o contrário, como rezava a cartilha hegeliana”, diziam. Também não era antissemita (com exceção do teórico Gustavo Barroso e alguns seguidores), nem excluía negros ou indígenas. Reale esclareceu, décadas depois, que o antissemitismo de Barroso era exclusivamente financeiro, econômico, e não racista, étnico.

A mulher também participava e atuava no A.I.B., eram as chamadas “blusas verdes”, porém a elas eram reservadas missões restritas à Educação, Puericultura, Higiene e Assistência Social. Já a proximidade com o Fascismo italiano era notória, flagrante, em muitos pontos. Não obstante, Reale, posteriormente, após o seu exílio na Itália, quando viu de perto o funcionamento político daquele Estado, discordar do Estado Corporativo do Integralismo, do Estado Sindical, a partir do Município. Segundo Miguel Reale, “o Corporativismo que ele acreditava não pretendia ser totalitário, estatal, mas social, democrático” – explicava. Havia semelhanças e diferenças entre vários princípios, caminhos e pontos do programa integralista com o Fascismo italiano, mas, principalmente, Plínio e Reale, entre outros “chefes”, rejeitavam, com veemência e muitos argumentos, quaisquer analogias e comparações. O certo é que dentro do Movimento existiam várias correntes: fascistas, não fascistas, semi-nazistas, democráticas, nacionalistas, menos aquelas que consentiam, o mínimo possível, de qualquer forma ou parentesco, com o Liberalismo e com a Esquerda.

Na verdade, o Integralismo variava em suas concepções e objetivos até mesmo nas pessoas de seus principais ideólogos e “chefes”: Plínio, Barroso e Reale. Entretanto, todos os historiadores e cientistas políticos que se dedicaram ao estudo do Integralismo e publicaram ensaios, teses e livros consistentes sobre a ideologia e o movimento, vislumbram, clara e unanimemente, muitas identidades da Doutrina do Sigma com o Fascismo italiano. A maioria desses estudiosos conceitua e denomina o Integralismo como “O Fascismo Brasileiro”. Hélgio Trindade, por exemplo, talvez o que mergulhou mais profundamente na filosofia e na práxis da ideologia de Plínio Salgado, intitula sua mais prestigiada obra: Integralismo - O Fascismo Brasileiro na Década de 30. Marcelo, filho de José Augusto, leu essa obra em 1974, ano do seu lançamento, e elaborou trabalho analítico e crítico sobre ela na Universidade Federal Fluminense, durante o Curso de Comunicação Social (1973-6), o seu segundo bacharelado naquela Universidade, após a conclusão da Faculdade de Direito (1968-1972). Na obra de Hélgio, constam da lista dos principais veículos de Comunicação do Integralismo, o semanário Espumas e A Ordem (sua segunda denominação), de Niterói, ambos criados e dirigidos por José Augusto da Câmara Torres.

UM JORNAL POLÍTICO

O número 6 de Espumas (2ª quinzena de janeiro de 1934), que passa a circular com o seguinte dístico em seu cabeçalho “Dedicado aos alunos do Colégio Salesiano Santa Rosa”, possui oito páginas, e traz em uma de suas três colunas da sua terceira página o texto Movimento integralista, onde se cria um “espaço para noticiar o desenvolvimento da ideia integralista no Colégio Salesiano...” O texto informa que o dito Movimento, iniciado no Colégio pelo professor Antonio Mendes e pelo clérigo Jaime Martins, “de ordem da Chefia Provincial, constituiu, a 20 de setembro de 1933, o triunvirato integralista composto dos seguintes colegas...” Eram três os alunos. Um deles é José Augusto. E, mais abaixo, na coluna, são homenageados os dez primeiros estudantes do Colégio que passaram a ser integralistas. José Augusto é o segundo; Dayl, o terceiro. É o engajamento explícito do jornal nacionalista e católico à A.I.B. A partir de então, o jornal, mesmo não oficialmente, o que vai ocorrer mais tarde, se torna um veículo integralista, que difunde as ideias integralistas.

A 31 de agosto de 1934, na Sala de Redação de Espumas, em “noite solene”, José Augusto lê um “Compromisso” que elaborou, no qual os membros da Diretoria do jornal juram “obediência e respeito em qualquer tempo e lugar” ao Regulamento do periódico, também “por uma jura de amizade para que Espumas seja tão grandiosa como pensam e desejam os que a fundaram. Prometemos, também, ter na hierarquia um dos fundamentos do nosso rumo. Que a vontade e a força de nossas promessas marquem a diretriz dos nossos ideais, são os desejos nossos na noite solene de hoje.” O Regulamento, manuscrito por José Augusto, em treze páginas, com 54 artigos, foi aprovado, por unanimidade, naquela “sessão extraordinária”. E tudo abrangia. Periodicidade, sustentabilidade, linha editorial, normas de conduta da Diretoria, etc. Tinha por programa “incentivar o amor às letras e às ciências”. A Diretoria, na noite do “Compromisso” e de aprovação do “Regulamento”, era assim composta: “Diretor: José Augusto da Câmara Torres; Gerente: Dail do Carmo de Almeida; Secretário Witeldson Costa Reis; Tesoureiro: Alberto Furtado Grabowski”.

As oito páginas persistem. Na sétima edição, o tesoureiro do jornal é Eduardo Sodré substituindo Oton. Os anunciantes proliferam. Agora, não apenas o comércio do bairro de Santa Rosa e algumas empresas do Centro da cidade investem em publicidade, que se diversifica, divulgando lojas, marcas e representações de toda a capital. E anúncios de empresas de outros Municípios e do Distrito Federal. O regime de assinaturas se expande em todo o município, por todo o Estado. A oitava edição de Espumas sai com doze páginas e vai alternando entre oito e doze páginas até a 12ª edição, quando vai à lume a 1ª edição de aniversário, a 19 de agosto de 1934, saudada por todos, alunos, professores, leitores. Neste ponto, Espumas já é conhecido e lido em todo o País, especialmente entre as hostes salesianas e integralistas. Os jornais católicos reproduzem suas matérias em diversos Estados. Semanas antes, noticiou a Folha Colegial, na noite de 5 de junho, houve uma comemoração de aniversário do jornal, presumivelmente num dos salões do Colégio, onde alunos e professores discursaram e disseram poemas. Num determinado momento, “rasgou o verbo José A. da Câmara Torres, o infatigável diretor de Espumas”.



1934, segundo ano de Espumas. No cartão do Diretor do jornal,
o Sigma, símbolo do Movimento Integralista.
(Acervo Marcelo Câmara)

Surpreendentemente, na 13ª edição, de 28 de outubro de 1934, voltamos às quatro páginas e a primeira página estampa. “Directores: JOSÉ AUGUSTO TORRES e DAIL DO CARMO”. Os colaboradores se multiplicam, o jornal se afirma no meio estudantil e em toda Niterói. Escrevem para o jornal ou têm seus textos reproduzidos os “chefes” Plínio, Reale e Barroso, além de toda a intelectualidade fluminense e nacional, militante, adepta ou, ao menos, simpática à ideologia. Assim, vemos textos de grandes escritores, artistas, historiadores, cientistas sociais, políticos de nome e fama nacional, pensadores da altitude de um Alceu de Amoroso Lima, produzindo matérias especialmente para o jornal ou autorizando a sua publicação, com dedicatórias e elogios a José Augusto e Dayl. Colaborador constante da Folha Colegial, e, também de Espumas, era o Professor de Geografia Geral e do Brasil, Francisco Portugal Neves, católico, nacionalista extremado, que produzia inteligentes “soluções” mnemônicas sobre os léxicos dos conteúdos que lecionava. Natural de Santa Maria Madalena, RJ, Portugal Neves, coincidentemente, décadas depois, foi professor de dois filhos de José Augusto nas décadas de 1950 e 1960, Marta e Marcelo.

No início de 1935, a mãe de José Augusto, a Dona Liquinha, repele “grosseiramente”, qualifica José Augusto no caderno de anotações, o pedido do filho para comprar uma “tômbola”, uma rifa, da A.I.B. Dona Liquinha qualifica o Movimento como “porcaria”. O pai, católico fervoroso, que tinha um verdadeiro altar com imagens e livros de orações em casa, parece ser mais moderado e discreto. Não vibra nem o desanima. Já na casa de Dayl há consensos: o irmão Lyad de Almeida (Lyad Sebastião Guimarães de Almeida), também aluno salesiano, que, depois, será prestigiado professor universitário, ilustre Desembargador da Justiça do Trabalho, ator profissional, aplaudido poeta e administrador cultural, escreve em Espumas, integra a diretoria do Grêmio José de Anchieta. É, também, integralista. O pai, Raul Stein de Almeida, admirador da ideologia, anuncia regularmente no jornal como professor particular de Francês, Português e Matemática.

Na segunda quinzena de abril de 1936, no número 27, Oton Carvalho e Silvio Aires são “Redatores”, com seus nomes apresentados na primeira página. A história do corpo redacional e administrativo de Espumas revela um rodízio, com um movimento de vários nomes que ascendem a postos e são substituídos a toda hora, exceto os nomes dos Diretores que não mudam: José Augusto da Câmara Torres e Dayl de Almeida, os proprietários do veículo. A edição de 26 de julho de 1938 de O Binóculo, jornal hebdomadário “crítico, humorístico e noticioso”, de Caicó, RN, dirigido pelo Dr. José Gurgel, noticia o terceiro aniversário de Espumas, que tem a direção do “nosso inteligente conterrâneo José Augusto Torres (...) que se fez jornalista aos doze anos de idade publicando e dirigindo O Ideal da Juventude, quando ainda aqui estudava no velho Grupo Escolar Senador Guerra”. A ele “levamos os nossos melhores e mais jubilosos abraços pela brilhante vitória”. A 7 de setembro de 1936, Espumas passa a ser um jornal semanal, com grande circulação e se filia ao "Sigma Jornaes Reunidos", rede da Imprensa integralista.

BACHAREL SALESIANO

Em 1936, José Augusto conclui as cinco séries do Curso Ginasial. Média final: 65. E é um dos oradores na formatura, discursa no banquete de formatura dos Bacharéis de 1936, na presença de Gustavo Barroso, que ele escolhera e, pessoalmente, convidou para paraninfar a sua turma. José Augusto é reconhecido como um ativista católico e político “um mosquito elétrico”, diziam, produtivo, agitador pela palavra: produz muito, escreve, publica, faz palestras, conferências, discursos nos palanques; participa de passeatas, desfiles, convenções; é o homem das falas nas estações de rádio, viaja aos municípios vizinhos. Não para um segundo. O cumprimento do currículo formal do Colégio obtendo notas altas não é prioridade absoluta. Gustavo Barroso está presente na formatura: missa, banquete, festa. Dayl é o orador na colação de grau. A Folha Colegial, de 22 de novembro de 1936, estampa nas suas páginas centrais: OS BACHAREIS DE 1936 SE DESPEDEM – POR INTERMEDIO DA ‘FOLHA COLEGIAL’ e José Augusto consigna na matéria:

A comparação belíssima de Chateaubriand imortalizada nos três gênios da Glória, do Amor e da Amizade pode bem representar o meu pensamento ao deixar o velho Santa Rosa. A Glória, o Amor, não se apegaram em mim porque a força do meu nome foi insignificante para gravá-los perante o mundo. A Amizade, porém, a amizade dos salesianos, dos mestres e colegas, essa me acompanhou na vida colegial e a levo agora insculpida no livro branco do meu coração.

José Augusto encerra o ciclo de sua vida como aluno salesiano, concluindo, brilhantemente, o Quinto Ano do Curso Ginasial, recebendo, ao final de 1936, Medalha de Prata e um Diploma, com seu nome no Quadro de Honra ao Mérito.


PROGRESSO E UM NOVO NOME
PARA ESPUMAS

Até fevereiro de 1937, portanto em quase cinco anos ininterruptos de atividades, Espumas se desenvolve magnificamente. O jornal ultrapassa as fronteiras fluminenses e cariocas, torna-se um veículo político nacional. Há assinantes em todo o País. O intercâmbio com outros veículos que defendem o Sigma é intenso, progressivo. Já em 1937, o jornal já assume, gráfica, explícita e publicamente, a sua linha política: o jornal exibe sob o título: “Ação Integralista Brasileira” e completa: “Semanário Nacionalista Cristão da Sigma Jornaes Reunidos”. À direita, as palavras de ordem destacadas sob um cerco de linhas “Fé, Nacionalismo e Disciplina”. Definitivamente, e isto registram os livros da nossa História Política, é o veículo integralista de Comunicação Social mais importante do Estado.


(Acervo Marcelo Câmara)

Elviro Medeiros e Luís Bruce, colegas de José Augusto e de Dayl, são os “Redatores”, com seus nomes na primeira página, onde não se escreve mais Estado do Rio de Janeiro, mas “Província do Rio de Janeiro”, uma definição geográfica de ação política da A.I.B. O número 56 anuncia que, após uma eleição entre os integralistas, leitores e assinantes, o jornal terá um novo nome: A ORDEM. O número 57 do jornal que, agora, se denomina A Ordem, esclarece: “FUNDADO SOB A DENOMINAÇÃO DE ESPUMAS". A manchete: A ORDEM entra, vitoriosa, no 5º ano de existência. A palavra do Brasil: “À ORDEM, O ANAUÊ DE (a) Plínio Salgado. Rio 18.6.37”. Abaixo uma foto de Plínio e uma mensagem especial do Chefe Provincial Raimundo Padilha. A edição circula com miolo de papel revista e tem doze páginas. “Um êxito estrondoso!” – bradam os jovens jornalistas e seus leitores entusiastas.

Ano V, nº 51. Em junho de 1937, A Ordem é o novo nome de Espumas,
escolhido pelos leitores, resultado de enquete.

(Arquivo Marcelo Câmara)

A MORTE DE UM JORNAL

A 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas instala o Estado Novo, uma ditadura que centraliza poder na figura do Presidente. O regime é de exceção. Praticamente extingue o Federalismo, trilha o nacionalismo, extingue o Poder Legislativo, institui uma rígida censura, suspende direitos e garantias individuais, exerce um autoritarismo violento, com grande repressão aos comunistas e aos que fazem oposição. Com o golpe no mês seguinte, Vargas bane os partidos e as agremiações políticas como a A.I.B. Todos são colocadas na ilegalidade. Espumas continua sendo um jornal católico, nacionalista. Continua editando os textos, as colaborações, de Plínio Salgado, Gustavo Barroso, Miguel Reale, dos chefes integralistas de Niterói e do Estado, de intelectuais simpáticos ao Sigma de todo o País. Mas não se fala mais em Integralismo, em A.I.B., em Estado Integral, em Sigma, nada similar. O último número do jornal A Ordem (fundado com a denominação de Espumas) tem o número 65 e sai às ruas na primeira semana de fevereiro de 1938. Ary Figueiredo é um terceiro diretor que se junta a José Augusto e Dayl.



Parte superior da primeira página da última edição de A Ordem: perplexidades e perguntas.
O jornal continuava católico, nacionalista e anticomunista, mas o Integralismo não mais existia,
estava banido da vida política brasileira.

(Acervo Marcelo Câmara)

Um balanço da produção jornalística dos que publicaram em Espumas e em A Ordem, em mais de cinco anos de Jornalismo católico, nacionalista, político - coerente, combativo, tenaz - informa que o fundador e primeiro diretor, José Augusto, foi o que mais escreveu e publicou. Foram centenas de matérias entre editoriais, artigos de fundo, reportagens, entrevistas, notícias, notas, além de crônicas e contos. O segundo em quantidade de escritos é o companheiro Dayl de Almeida – Dayl do Carmo Guimarães de Almeida, depois, sociólogo, professor universitário, deputado estadual e federal. Este, o maior amigo, o maior companheiro de lutas estudantis e políticas, colega de academia de letras, “o irmão xifópago do Zé”, como ele mesmo se definiu – viria a ser, dos anos 1970 até o fim da vida, grande amigo, mestre e conselheiro intelectual de Marcelo, filho mais velho de José Augusto, inclusive seu padrinho de casamento. Muitos dos jovens que se tornaram amigos e colegas de José Augusto e Dayl após a formatura do Curso Ginasial desses dois, colaboraram em Espumas e em A Ordem, assim continuaram no Curso Pré-Jurídico, no Liceu Nilo Peçanha, e na Faculdade de Direito de Niterói – amigos até o fim de suas vidas. E, também, viriam a ser amigos do seu filho Marcelo. Ou, pelo menos, se encontraram com Marcelo em algum ou alguns momentos de seus percursos sociais, culturais, profissionais.

Muitos se tornaram importantes políticos, magistrados, professores, intelectuais renomados, profissionais de prestígio no Estado, alguns no País, como o próprio Lyad de Almeida, Lyad Sebastião Guimarães de Almeida, professor, magistrado, ator e poeta, cujo filho mais velho e ele próprio foram amigos muito próximos de Marcelo; Antônio Paulo Soares de Pinho, professor universitário, desembargador, jurista, mais tarde professor de Direito Constitucional de Marcelo na Faculdade de Direito de Niterói; Anselmo Macieira, Jornalista, depois, Diretor da Casa de Oliveira Viana, ensaísta, economista, Consultor Legislativo do Senado Federal, intelectual e crítico de estofo, nos anos 1980 encontrou-se com Marcelo na Consultoria Legislativa da Câmara Alta, onde foi seu colega, orientador intelectual e profissional, tornando-se um de seus maiores amigos; Celso Peçanha, prefeito, deputado estadual e federal e governador, afilhado de casamento de José Augusto; Celso Dias Gomes, médico de renome, por vezes pediatra dos filhos de José Augusto e parapsicólogo respeitável na década de 1960, foi professor de Biologia de Marcelo no Curso Clássico do Salesiano; Braz Felício Panza, advogado e desembargador, que, vinte anos após a morte de A Ordem, paraninfou a turma ginasial de Marcelo no mesmo colégio; Oton Barros, otorrinolaringologista famoso, se tornou médico do jovem Marcelo; José Artur Rios, colega e amigo de José Augusto no Salesiano, no Liceu e na Faculdade, professor e sociólogo, será, também, colega de Marcelo no Senado e companheiro na vida intelectual. Muitos os nomes ilustres, parceiros de juventude de ideias e ação política de Câmara Torres, que marcaram a História da Política e da Cultura em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro e no País no Século XX, foram também amigos do seu filho Marcelo Câmara, autor desta biografia.


PROSSEGUE O ORADOR
AGORA ALUNO SALESIANO:
FALAS, DISCURSOS,
MONOGRAFIAS, PALESTRAS,
DE 1933 A 1936
DOS 15 AOS 19 ANOS

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Aqui não estão listadas as dezenas de manifestações
de Câmara Torres como Membro da Congregação Mariana
Nossa Senhora Auxiliadora e Dom Bosco e
na condição de fundador e presidente
da Associação São Francisco de Sales,
braço cultural da Congregação,
citadas no Capítulo O Homem e o seu Tempo - de 1917-1956
________________________________________________________
  • Em algum dia de 1933, no seu primeiro ano em Niterói e na segunda série ginasial do Colégio Salesiano Santa Rosa, José Augusto escreve um longo texto, uma verdadeira monografia sob o título Terra Potiguar, discorrendo sobre aspectos geográficos, históricos, sociológicos e políticos da sua terra natal, o Rio Grande do Norte. O trabalho, pelo que consta nas suas primeiras linhas, seria lido e o credenciaria a ingressar em um grêmio estudantil do Colégio, o José de Anchieta. Porém não há provas de que o ensaio-conferência foi pronunciado ou publicado.
  • A 6 de setembro de 1933, saúda, representando o Núcleo do Colégio Salesiano Santa Rosa, da Ação Integralista Brasileira – A.I.B., o jornalista e escritor Plínio Salgado, em sua visita político-doutrinária a Niterói.
  • A 2 de abril de 1934, profere, no Colégio Salesiano Santa Rosa, oração em homenagem ao Professor Francisco Portugal Neves, representando os alunos do 3º ano ginasial.
  • A 5 de junho de 1934, no Colégio, faz um longo discurso aos colegas e professores, diante do Diretor, Padre Emílio Miotti, no primeiro aniversário de Espumas, jornal que fundou e dirigia. Faz um balanço dos desafios, dificuldades e vitórias do semanário e desenha um futuro de lutas e mais conquistas, sob a égide do idealismo dos jovens: “Seremos uma tribuna de ideias em que encontram agasalho e estímulo todas as energias novas que quiserem trazer ao seu contingente a defesa de Deus e da Pátria”.
  • A 7 de setembro de 1934, nas comemorações do “Dia da Pátria” no Colégio, pronuncia oração histórica e cívica, diante do Padre Diretor, professores, convidados e colegas.
  • A 10 de outubro de 1934, profere o principal discurso durante a instalação da Academia São Francisco de Sales, braço cultural da Congregação Mariana do Colégio, instituição que fundou com os irmãos Dayl e Lyad de Almeida, e viria a ser o Presidente, por várias gestões, a partir de 1937.
  • A 17 de novembro de 1934, novamente sobe à tribuna, desta vez, representando as cinco séries do Externato, do curso ginasial do Colégio, para homenagear, frente aos corpos docente e discente, colegas e suas famílias, o Professor Portugal Neves, numa repercussiva ode e patriótica e nacionalista.
  • Em 1934, escolhido pela Direção do Colégio, profere fala em nome dos alunos externos, em evento que reúne no Santa Rosa, as suas famílias. Discorre sobre a Educação Salesiana, a Pedagogia de Dom Bosco, e necessidade de uma integração cada vez maior das famílias com a Escola.
  • A 9 de dezembro de 1934, no Colégio Salesiano Santa Rosa, fala como Orador do Corpo Discente, no encerramento do ano letivo, diante da Direção, Professores, Alunos, Pais e Convidados.
  • Em 1934, a convite de um “Chefe da Juventude de um Núcleo Integralista de Niterói”, chefe e núcleo não identificáveis, faz contundente palestra teórico-doutrinária, nos campos da Ciência Política e da História, contra o Comunismo e o Anarquismo, a uma plateia integralista, também não identificável, defendendo a doutrina do Sigma, de Plínio Salgado.
  • Em 1934, em Maricá, RJ, faz pronunciamento político aos integralistas do município.
  • A 24 de fevereiro de 1935, no Salão Nobre do Colégio, por ocasião da Festa de São Francisco de Sales, padroeiro da Congregação Salesiana, houve “soleníssima sessão lítero-musical” da Associação São Francisco de Sales, braço cultural da Congregação Mariana, presidida pelos bispos de Campos e de Niterói. “Fechando a simpática sessão falou, muito apreciado, o congregado José Augusto Torres, membro da Academia”, registrou a Imprensa.
  • No final de 1936, recebe, do Instituto Catholico de Estudos Superiores, fundado por Alceu de Amoroso Lima, sediado no Rio de Janeiro, Certificado do Curso de Sociologia. Naquele ano letivo, a Direção do Instituto estava a cargo de Sobral Pinto e o seu professor foi Magalhães Bastos.
  • Em 1936, discursa ainda: na Sede Municipal da A.I.B., de Niterói; no Núcleo de Santa Rosa da AIB; em casas de família; em reuniões de culturais, cívicas e sociais de alunos e professores.
  •  A 13 de dezembro de 1936, discursa na Sede da A.I.B. em Natal, RN.
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domingo, 12 de janeiro de 2020

A TRANSFERÊNCIA PARA NATAL

CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES
1917  – 2017
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 2017)
Jornalista, Educador, Advogado, Político
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A 6 de fevereiro de 1932, o Senhor Torres e o menino José Augusto, com 14 anos chegam a Natal, dirigindo-se à Rua Coronel Bonifácio, 679, no bairro Cidade Alta, Natal. Não se sabe se este endereço é de algum amigo ou parente dos pais de José Augusto. A mãe, Dona Liquinha, e o filho Marconi, então com oito anos, permanecem em Caicó. Dalvanira, a irmã de 13 anos, vai morar com os avós maternos, Seu Loló e Dona Lica, em Baixa Verde, atual João Câmara, a menos de oitenta quilômetros de Natal. Dias depois, José Augusto presta exames de Admissão ao Curso Ginasial, sendo admitido, como aluno interno, no prestigioso Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas. “Aprovado plenamente com grau 9”.

           Aos quatorze anos, em Natal, já não se conformava com a ausência
do patronímico materno. E, sempre que podia, se identificava e escrevia
“José Augusto da Câmara Torres”.

               (Acervo Marcelo Câmara)


Conta-se que o telegrafista José Antunes Torres, chefe da Estação de Caicó, recebera uma mensagem cifrada num telegrama. Nesta mensagem “era planejado, numa tocaia, o assassinato do Prefeito nomeado pela Revolução, Dinarte Mariz”. O pai de José Augusto teria avisado Dinarte da emboscada, antes de entregar a mensagem ao destinatário. Os criminosos suspeitaram da violação da correspondência e ameaçaram matar o pai de José Augusto. Assim, Dinarte providenciou junto ao Governo Federal a transferência urgente, camuflada e segura, do telegrafista para fora de Caicó. Mas isto somente se deu a 11 de agosto de 1932, quando José Augusto já cursava o segundo semestre no Santo Antônio, em Natal. No dia seguinte, o Sr. Torres, o telegrafista, assume a Agência em Areia Branca, onde vai residir com a mulher e Marconi. Nem o Prefeito de Caicó, Dinarte Mariz, nem o telegrafista, jamais falaram, oficial ou publicamente, sobre o episódio. História de alguns contemporâneos, nunca publicada. Certo é que José Augusto teria de se transferir para a capital para fazer o Curso Ginasial. E o fez antes da mudança da família. O número 10, e último, de O Ideal da Juventude, de 11 de fevereiro de 1932, noticiava (na grafia original):


JOSÉ AUGUSTO TORRES

Para Natal, onde vae continuar os seus estudos,
 transportou-se sexta-feira da semana passada
 este nosso jovem companheiro de lides jornalísticas.
Fundador e Diretor do “Ideal da Juventude”,
José Augusto revelou uma inteligência
 que desabrocha promissôramente.
Auzentando-se, deixou uma lacuna impreenchível
 porque, trabalhador e inteligente, no gremio
dos complementaristas ninguém o igualava em actividade.
 Contando que não nos deixará sem sua assídua colaboração,
 fazemos votos de completo êxito nos seus estudos.
                                                    

A 19 de fevereiro de 1932, José Augusto ingressa no Colégio Santo Antônio, vai ser um aluno interno, assiste a primeira aula da primeira série do Curso Ginasial. Terá como colega de turma Eugênio de Araújo Sales, um menino, como ele, do interior do Estado. Proveniente de Acari, que fica cerca de 60km de Caicó, Eugênio, então com onze anos, já anunciava aos companheiros de classe: “Quero ser padre. Vou ser padre. É o que desejo. Não tenho qualquer dúvida”. E foi. Faleceu em 2012, como Cardeal Emérito da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Eugênio pertencia aos mesmos Araújo do Seridó, família da mãe de Tudinha. Na mesma sala de aula, Túlio Tavares, pianista, irmão mais velho do brilhante violoncelista, compositor e maestro Mário Tavares, o maior intérprete e divulgador de Villa Lobos, aqui e fora do País. Mário era o caçula e Carlos, o irmão do meio, violinista. Os três, sobrinhos-netos do grande Alberto Maranhão, duas vezes governador do Estado e o grande mecenas da Cultura Potiguar. Destino: Túlio e Marcelo, este filho de Câmara Torres, serão colegas e amigos no Gabinete do Ministro de Estado do Trabalho, em Brasília, na segunda metade dos anos 1970. Em Natal, José Augusto verá gelo pela primeira vez.

Dalvanira, a irmã,
aos treze anos, já em Baixa Verde.

(Acervo Marcelo Câmara)

Logo, José Augusto faz boas amizades, se destaca no grupo pela inteligência, cultura, criatividade e intensa atividade. Exibe os seus dons de orador e jornalista. O Colégio Santo Antônio, de Natal, criado em 1904, era propriedade da Diocese de Natal e foi entregue, em 1929, aos Irmãos Maristas. A 1º de março de 1933, aluno há poucos dias, o menino José Augusto, calouro, vindo do interior, é o orador oficial na solenidade do 28º aniversário da instituição. Meses depois, José Augusto é novamente alçado à tribuna, representando os seus colegas, quando da solenidade de inauguração do Estádio de Futebol do Colégio, para dizer, como representante do grêmio esportivo dos alunos internos, do significado e da alegria de todos por aquele novo espaço esportivo. José Augusto vai discursar e incentivar o Nordeste Futebol Clube, time dos alunos internos, no jogo de abertura da arena contra a equipe visitante do Ypiranga. Parece que o Nordeste foi o vencedor, porque, novamente, meses depois, perante professores, alunos e os prefeitos de Natal e municípios vizinhos, José Augusto fala em nome dos colegas e do Nordeste Futebol Clube contra outra equipe, quando o orador enfatiza: “Aqui estou pela segunda vez para apresentar o Nordeste. Os internos que hoje se batem constituem um time que ainda não se viu pisar em campo de luta para sofrer um revez”. A 15 de novembro, nas comemorações da Proclamação da República, de novo, ele é o orador dos internos.

Em 1932, aos 14 anos, com o uniforme de gala do Colégio Santo Antônio, em Natal.
(Acervo Marcelo Câmara)

Falas dos 14 aos 15 anos
de 1º.3 a 15.11.1932
no Colégio Santo Antônio
em Natal, RN


•    A 1º.3.1932, no aniversário do Colégio Sto. Antônio.
•    Em data festiva de 1932, na inauguração do Estádio de Futebol do Colégio Sto. Antônio.
•    Em 1932, num segundo jogo, em nome da equipe do Nordeste Futebol Clube.
•    A 15.11.1932, nas comemorações da Proclamação da República.

Mas, no Colégio Santo Antônio, não apenas o orador se exibe com sucesso. A terceira edição do jornal O Sete de Setembro, de 4.9.1932, “Órgão dos alunos do Colégio Santo Antonio”, um tabloide de oito páginas, traz, como principal matéria de capa, o artigo Trabalhemos, assinado por José Augusto. Trata-se de um longo texto de louvor ao Trabalho como bem, dom e dote, como supremo valor a ser considerado por uma Nação livre e democrática, suporte do seu desenvolvimento. José Augusto exalta e convoca a juventude marista ao estudo consciente e ao labor responsável, produtivo, socialmente eficaz. O artigo manchetea a primeira página para concluir-se igualmente extenso na quarta. O segundo número de O Sete de Setembro, que saíra no mesmo dia e mês do ano anterior, 1931, quando José Augusto ainda estava em Caicó, tinha o formato menor, A4, mas José Augusto além de lê-lo com interesse, o preservava em seus arquivos.

No Colégio Santo Antônio, em Natal, como se vê,  José Augusto se afirma como estudante aplicado, estudioso, um dos primeiros da turma, e, principalmente, jovem participativo, o orador e o jornalista que havia surgido na sua Caicó.



José Augusto, aluno do Santo Antônio, participa, a 24 de outubro de 1932, em Natal,
da Passeata Escolar, quando se comemorava o segundo aniversário da Revolução.

(Acervo Marcelo Câmara)

No final de 1932, José Augusto, após os exames ao término do primeiro ano do Curso Ginasial, José Augusto recebe as notas: “Média geral 90”, aprovado para se matricular no segundo ano. Mas não continua no Santo Antônio, pois a Família irá se mudar para Niterói.

Joaquim Inácio Torres (1874-1938), “Seu Torres”, membro da grei dos Torres potiguares, vivia em Natal, farmacêutico e ilustre professor do Ateneu Norte-rio-grandense, era uma figura estimada e folclórica na Capital. Câmara Cascudo, em O tempo e eu, conta uma deliciosa história, de Humor bem nordestino, ocorrida após a transferência do telegrafista, pai de José Augusto, e Família, para o Rio, durante o Levante Comunista de 1935 em Natal:

Eram 18h30m de 23 de novembro de 1935, em Natal. Seu Torres (o Joaquim Inácio) residia na Avenida Rio Branco, próximo ao quartel e, após o jantar, coloca a cadeira na calçada para fumar o seu charuto.

Passou um cabo do exército e vendo aquela tranquilidade, segredou-lhe:

- Seu Torres é melhor o senhor entrar. Vai começar uma revolução no quartel e deve haver tiroteio.
- Revolução, é? Está certo, obrigado.

Não perguntou que revolução era, nem para que e meteu-se na sala. Meia hora depois, como nada ocorresse, levou a cadeira para fora e continuou fumando. Passou um soldado correndo e Seu Torres gritou:

- Como é? Essa revolução vem ou não vem? Comecem logo, que coisa mais demorada!
- Vai rebentar logo, Seu Torres, mas não se arrisque, entre...

E saiu convencido de que o velho professor do Ateneu estava inteiramente sabedor da conspiração.

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sábado, 11 de janeiro de 2020

INFÂNCIA: O ESTUDANTE, ORADOR E JORNALISTA

CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES
1917  – 2017
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998)
Jornalista, Educador, Advogado, Político
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A EDUCAÇÃO NO LAR

No início do Século XX, imaginemos como era rigorosa, severa, a educação de José Augusto, no lar modesto do telegrafista José e da sua mãe, Dona Liquinha, bordadeira e que gostava de dançar, casa onde imperavam a disciplina e obediência incondicional, a moral católica e, consequentemente, os castigos e a usual palmatória, comum na “educação” da época. José Augusto, primogênito e sobrevivente às duas irmãs gêmeas, nascidas no ano anterior e falecidas semana depois, era muito magro, pequeno, mirradinho, porém, desde menino, revela aguda inteligência, curiosidade e desassossego, frente à realidade e dentro do regime doméstico, árido e repressor.

REVELAM-SE OS TALENTOS E VOCAÇÕES
A PRIMEIRA ESCOLA

A escola, as atividades fora de casa para José Augusto era a libertação, o oxigênio que precisava para conviver, conhecer, aprender e descobrir, estudar e crescer, física, espiritual e intelectualmente. Não que os pais o maltratassem, o torturassem, mas o ambiente escolar proporcionou ao menino o convívio com outros da sua idade, inclusive meninas, a sociabilidade, a atividade escolar, as primeiras manifestações proibidas, no mínimo “inadequadas” a um menino de oito anos, naquela Caicó no início do Século XX, pequena, conservadora, de poucas famílias, unanimemente católica.

A 1º de março de 1926, aos oito anos, ele ingressa no 1º ano do Curso Elementar do Grupo Escolar Senador Guerra – GESG, dirigido pelo austero e altivo Professor Joaquim Coutinho, para ser aluno da serena e afirmativa Professora Leonor Cavalcante, muito querida por ele, por todos os estudantes. Menos de quatro anos depois, a 1º de fevereiro de 1930, ele estava no 1º ano do Curso Complementar

Grupo Escolar Senador Guerra em dezembro de 1936, cinco anos após a partida
de José Augusto de Caicó para Natal, e de lá para Niterói. Aqui o menino iniciou-se
na Oratória e no Jornalismo, inaugurando a sua carreira de Homem Público.

(Acervo Marcelo Câmara)

Para se avaliar do regime de disciplina excessiva, medo e repressão, até de terror, que prevalecia em casa e na escola, eis o depoimento, de próprio punho, que José Augusto, aos 20 anos, escreveu no verso da folha de rosto do seu primeiro livro no qual aprendeu a ler e a escrever:

Ontem, 21 de março de 1938, na casa de um amigo, vislumbrei esta cartilha. E a minha infância desabou sobre a minha juventude. Voltei no tempo e no espaço a 1922, 23, 24, 25... e à minha cidadezinha querida... À casa onde nasci, à nossa vida familiar, tão original e áspera, daqueles anos... Vivi a recordação das minhas horas de deslumbramento quando conseguia juntar as letras e formar uma palavra... já sabia ler!; senti a impressão boa ou má das historietas ingênuas destas páginas... Revivi também o medo terrível do castigo de não saber algumas palavras, de não as pronunciar pelo receio do acento tônico e por não compreender algum sentido... Pensei no quadro da austera e forte educação antiga, da qual meu pai foi um dos últimos “pedagogos”... E entre um passado terno e inocente, longe de um grande centro de cultura, eu vivi horas encantadoras... cada página que avançava eram dias inesquecíveis vividos há 12,, 13 ou 14 anos atrás... Esta cartilha irá para a minha estante, no lado dos complexos e folhudos livros que agora me seduzem...
José Augusto, 22.3.38



Livro editado em 1923, com o qual José Augusto se alfabetizou.
O exemplar lhe foi presenteado em 1938, com afetuosa dedicatória,
pelo Professor Raul Stein de Almeida, que lecionava Francês, Português e Matemática
no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói, e dava aulas particulares em sua residência
na mesma cidade. Homem de grande Cultura e extraordinário Humor,
era Mestre formado na Sorbonne, em Paris, e pai do maior amigo de José Augusto
por toda a vida, “um irmão xifópago”, Dayl do Carmo Guimarães de Almeida.

(Acervo Marcelo Câmara)

FUNDADOR E EDITOR DE UM JORNAL AOS 13 ANOS

Inacreditável. Surpreendente. No mínimo, uma espantosa precocidade. Um menino do interior – filho do telegrafista da cidade, pobre, pequeno, esquálido, que não pertencia à família social ou politicamente poderosa ou abastada, se destaca, chama a atenção, brilha, entre a estudantada com sobrenomes tradicionais, de estatura física normal, corpulenta – funda e dirige um jornal. O Ideal da Juventude. Ele estava no primeiro ano do Curso Complementar “Mixto”, após percorrer os quatro anos do Curso Primário, básico. Um jornal que ultrapassa os muros da escola, do Grupo Escolar Senador Guerra: um “jornal mensal, literário e noticioso, órgão dos interesses do Grupo Escolar Senador Guerra – GESG, dirigido ao Povo de Caicó”. É interessante notar que o jornal, de periodicidade mensal, não circulava apenas no colégio, mas em toda a cidade. A distribuição, de início, parece que era gratuita, mas recebia assinaturas mensais (certamente, um projeto), semestral e anual, “das 12 às 2 da tarde, na residência do Director” (José Augusto), informava o “Expediente”. O jornal, de quatro páginas, era impresso na Tipografia Lebarre, propriedade de Odilon Lebarre, em Caicó.


Turma do “Curso Complementar Mixto do Grupo Escolar Senador Guerra”, a 15.6.1930.
No centro, à frente, o Diretor Professor Joaquim Coutinho.
Tudinha é a terceira, e José Augusto, o quarto, da esq. p/ dir. na segunda fila, de baixo para cima
.

(Acervo Marcelo Câmara)

O jornal foi fundado pelo pequeno José Augusto Torres (“JAT”) em 1931, como “orgam do Curso Complementar Mixto”. Assim, com esse horizonte, o primeiro número é lançado num domingo, dia que não havia aulas, a 8 de maio de 1931, sob a “Direcção de José Augusto Torres”. O último número, o de nº 10, vai à luz no dia 11 de fevereiro de 1932. O número 7 de O Ideal da Juventude foge do formato 32,5cmX20cm de quatro páginas e sai, com o mesmo número de páginas, mas no tamanho de um tablóide, com um belo e substancioso artigo, como tudo que escreveu, do genial e insuperável professor Luís da Câmara Cascudo, sobre a vida e a obra de Francisco de Brito Guerra, patrono do Grupo Escolar Senador Guerra. “Cascudinho”, como é conhecido na terra potiguar, renuncia aos seus direitos autorais do texto, em favor da escola.


Sentados, da esq. p/ dir., Tudinha é a primeira e José Augusto, o terceiro.
(Acervo Marcelo Câmara)

No terceiro número, Gertrudes Nóbrega, a Tudinha, é a Secretária do jornal. Tudinha torna-se musa de José Augusto quando o casal José e Maria, pais de José Augusto, em companhia do filho de dois anos, visita, no final de julho de 1919, o casal Joaquim Gorgônio da Nóbrega (1872-1944) e Senhorinha de Araújo Nóbrega (1883-1921), uma semana após o nascimento de Tudinha, a sua sexta filha, dos nove partos da mãe. Lamentavelmente, dois anos e pouco depois, Senhorinha falece quando tenta dar a luz a mais um filho, o nono. Portanto, o encantamento de José Augusto por Tudinha se faz platônico e infantil amor, não nos primeiros dias letivos de 1926, mas, talvez, antes, metafisicamente, naquela visita no resguardo de Senhorinha.


No terceiro número do jornal, Gertrudes Nóbrega, a Tudinha, primeira aluna da classe,
 que aos doze anos já fazia a contabilidade da casa comercial do pai,
a maior da cidade, é a Secretária de O Ideal da Juventude.
Informação de primeira página, no alto, à direita.

(Acervo Marcelo Câmara)

Adaucto Rocha era o gerente do jornal, e entre os colaboradores estavam, além do próprio Adaucto, Waldemar Nóbrega e Maria Dativa de Araújo, primos de Tudinha, Câmara Cascudo, Joel Fernandes de B. Guerra, José Lázaro Filho, Clovis Batista, Alda Fernandes, Wilson Regalado Costa, V. Gurgel, Hylarino Pereira, Carmen Dora, Josué Silva, o Diretor Joaquim Coutinho, a professora Leonor Cavalcante e muitos outros sob pseudônimos masculinos e femininos, especialmente os dois últimos.

O segundo número de O Ideal da Juventude traz o resultado de um concurso feito entre o corpo discente para que se votasse e elegesse “O aluno mais estudioso do Complementar Mixto”. E José Augusto foi o primeiro classificado com 38 votos.

José Augusto anotou num caderno de notas: “Às 5h20m da tarde de 26 de julho de 1930, o Doutor João Pessoa é assassinado na Confeitaria Glória, no Recife por Dantas Duarte”. No primeiro aniversário da morte de João Pessoa, a 26 de julho de 1931, o menino José Augusto, aos treze anos, planeja e edita uma revista especial, sob o título “26 de julho – Orgam d’”O IDEAL DA JUVENTUDE”, que traz textos do Diretor Joaquim Coutinho, da Professora Leonor Cavalcante, de membros do Corpo Redacional do jornal e onde, também, ele publica a crônica A Bandeira. Publicou-se, ainda, um trabalho de Genealogia de Manoel Fernandes de Araújo, da Associação Educadora Caicoense, fundada em 1919 pelo jornalista José Gurgel de Araújo (1892-1966) e que tinha por finalidade ser a mantenedora da Biblioteca Olegário Vale, criada em 1918.


Capa da Revista 26 de julho, publicação especial lançada pelo Ideal da Juventude,
planejada e editada por José Augusto em 1931, no primeiro ano da morte de João Pessoa
.
(Acervo Marcelo Câmara)

O Ideal da Juventude se afirma magnificamente na cidade e região. O jornal já não tem “distribuição gratuita”, mas um preço, um valor é pago por cada exemplar, afora as “assinaturas”. O veículo e enviado a outros jornais e revistas do Estado e do País, ocorrendo um interessante intercâmbio.


ORADOR AOS DOZE ANOS

José Augusto foi um fenômeno da inteligência, de superações intelectuais e de exuberância do verbo. Um criador, construtor e realizador precoce, principalmente, da palavra escrita e falada. As naturais e oportunas manifestações em sala de aula ou fora dela, as perguntas, a compreensão, os comentários e as interpretações das falas e dos textos perpetrados pelo menino, franzino e lépido, no ambiente escolar, daquela criança, o menor em estatura física da turma, assombraram mestres e alunos, dadas a sua pertinência, profundidade e relevância, à boa dialética e argumentos do seu informal discurso. Essas circunstâncias o aureolaram de brilho, despertando o interesse e aproximação e a unanimidade da direção, dos mestres, dos colegas, de toda a escola à sua volta. E o elevaram, além do redator-mor, do jornalista diretor de O Ideal da Juventude, mas à condição de arauto natural, de representante da turma, no texto do papel e na dicção da voz.

Assim, com apenas doze anos idade, José Augusto, aluno do primeiro ano do Curso Complementar Mixto do Grupo Escolar Senador Guerra, se torna, como veremos, ao elencar as suas orações, não apenas o orador da turma e da escola, mas da própria infância e juventude da sua cidade. Aos doze anos, a 3 de maio de 1930, ele pronuncia o seu primeiro discurso público. Nele, trata da polêmica acerca da data do Descobrimento do Brasil e do “Dia da Natureza”, hoje “Dia da Árvore”.



Primeira página do primeiro discurso,
escrito e lido por José Augusto aos doze anos, a 3.5.1930.

(Acervo Marcelo Câmara)

A 7 de setembro de 1930, aos treze anos, ele vai agora escrever e dizer um discurso aos seus professores e colegas, fazer da sua voz e sentimento, a voz e o sentimento de todos. É a solenidade do Dia da Pátria na escola. José Augusto diz longa, rica e surpreendente oração. Discorre sobre a nossa História, o heroísmo dos nossos ancestrais, mártires que lutaram pela Independência. Percorre as principais lutas que precederam o Grito do Ipiranga, desde Bernardo Vieira de Melo, do Padre Miguelinho e seus companheiros da Revolução Pernambucana de 1817, do suplício de Felipe dos Santos em 1720, da Revolução de Minas e o martírio de Tiradentes. Relembra fatos e personagens que prenunciam a República proclamada em 1889. Tudo isto para defender “o Patriotismo, fé e consciência, o Civismo, pensamento e conduta, a necessidade de nos mantermos unidos, conscientes e responsáveis pelo presente e o futuro, pela paz e o progresso do País”. Arremata a sua fala, erguendo um “Viva ao Sete de Setembro e ao nosso amado Brasil!”.

No Dia do Mestre, a 15 de outubro de 1930, novamente o menino José Augusto é escolhido para, em nome dos alunos, discursar. Escreve e faz uma preleção laudatória à Educação, à Escola, aos Professores, destacando a importância do processo, do lugar e dos agentes respectivamente na instrução intelectual e profissional, na formação moral e cívica das crianças e jovens. Reúne todas as homenagens, ramalhetes de gratidão e carinho, à Dona Leonor Cavalcante (Maria Leonor Cavalcante), sua professora.

Seguiram-se, em Efemérides Nacionais, discursos de José Augusto, em nome do corpo discente, dirigidos a autoridades locais e regionais, aos professores e alunos do GESG, e ao Povo de Caicó.


DISCURSANDO PARA O GOVERNADOR

A 25 de agosto de agosto de 1931, o Governador do Estado do Rio Grande do Norte, Hercolino Cascardo, Interventor nomeado por Getúlio Vargas, após a Revolução de 1930, faz uma visita oficial a Caicó. José Augusto, aos quatorze anos, é designado orador oficial do município, indicado para saudar o Governador em nome das crianças, da juventude da terra. A sua missão: dizer àquela autoridade que a “mocidade das escolas, a infância estudiosa, esta entusiástica legião a quem estarão entregues amanhã os destinos da Pátria, se associa cheia de ardor cívico para expandir também o seu júbilo pela presença do eminente Chefe do Estado e render o seu preito de admiração ao bravo marinheiro, sentinela indômita na defesa dos brios e da dignidade da nossa querida Pátria”.

É o início da sua Vida Pública.

Hercolino Cascardo (*Rio de Janeiro, RJ, 1900 - †idem,1967) era oficial da Marinha de Guerra, participou do movimento tenentista, foi revolucionário ao lado de Getúlio Vargas, teve vida militar e política movimentada e acidentada. Começou na Coluna Prestes, depois do Levante Comunista de 1935, esteve preso “por engano” sendo libertado em 1937. Foi afastado da vida militar até a redemocratização de 1945, quando se filiou ao Partido Socialista Brasileiro. Em 1954, reintegrado, foi transferido para a reserva como Almirante de Esquadra.

O curioso deste pronunciamento é que ele não foi escrito por José Augusto. Mas, elaborado à última hora, à lápis, “em cima da perna”, qual um rascunho, cheio de riscos e emendas. José Augusto leu três folhas soltas de papel timbrado do advogado Doutor Renato Celso Dantas, que foi o autor do texto, à época um respeitado intelectual da região do Seridó. No verso da terceira página, o orador escreveu em tinta roxa: “ Feito por Dr. Renato – José Augusto – 25-8-1931”. Neste dia, o menino tomou vinho pela primeira vez. “Inesquecível”, lembrava-se, já casado, com um sorriso.

Falas dos 12 aos 14 anos,
de maio de 1930 a novembro de 1931
em Caicó, RN


  • A 3.5.1930, acerca da polêmica sobre a data do Descobrimento do Brasil e sobre o “Dia da Natureza”, numa praça pública da cidade, próxima ao GESG.
  • A 25.8.1931, “em nome da mocidade de Caicó”, para o Governador do Estado, autoridades e Povo da cidade, no lugar oficial de recepção à autoridade.
  • A 7.9.1931, sobre a Independência do Brasil, no “Dia da Pátria”, no GESC.
  • A 26.7.1931, no primeiro aniversário da morte de João Pessoa, oração sobre a sua vida, trajetória e obra, no GESG.
  • A 15.10.1931, no “Dia do Professor”, faz profunda reflexão sobre o lugar, a saúde e o bem-estar da criança, da infância, do jovem, no lar, na escola, na sociedade, lançando suas expectativas sobre o futuro das gerações que são instruídas e educadas. No GESG.
  • A 17.10.1931, pelo “Dia do Professor” em homenagem ao Diretor do GESG, Professor Joaquim Coutinho, em recepção na residência deste.
  • A 24.10.1931, narra e exalta a Revolução de 1930, antevendo um futuro de paz, prosperidade e progresso para o Brasil, no GESG.
  • A 19.11.1931, no “Dia da Bandeira”, oração cívica sobre a história do símbolo pátrio, seu significado social e político, diante do Doutor Nestor Lima, Chefe da Instrução Pública Estadual, professores e alunos do GESG.


PRIMEIROS INTERESSES
PRIMEIRAS INFLUÊNCIAS


A Língua Portuguesa, a Literatura Portuguesa e Brasileira, a História do Brasil, a História da Civilização, a Política Nacional e o cenário político, socioeconômico e cultural internacional, depois da Primeira Grande Guerra, inclusive as conquistas das Ciências e Tecnologias – esses foram os primeiros interesses do menino José Augusto ainda em Caicó, nos seus primeiros anos na escola. Os livros didáticos adotados e as indicações de leitura, inclusive em atividades extraclasses, foram as suas primeiras leituras. Os exemplares davam início a sua biblioteca, que, doados ao seu filho Marcelo, antes de falecer, ultrapassavam 2 mil volumes. E os autores dessas obras forjaram as primeiras influências e ideias na formação do estudante, do estudioso, do jornalista e orador, do futuro intelectual, fértil e produtivo. Havia apenas uma sala de leitura na cidade: a Biblioteca Olegário Vale que funcionava num dos salões da Intendência Municipal, no mesmo prédio que também estava o Grupo Escolar Senador Guerra, mantida pela Associação Educadora Caicoense.

As primeiras idéias e doutrinas até os quinze anos vieram prioritária e diretamente, dos seus primeiros mestres, seus professores em Caicó e em Natal. Era nas aulas do Grupo Escolar e, em seguida, no Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas, em Natal, que o menino ouvia as recomendações sobre nomes e obras fundamentais para a formação dos “homens cristãos e de bem, cultos, íntegros, patriotas, futuros cidadãos, prontos para enfrentar a vida”. E a Igreja Católica foi a mais forte influência de indicações e aconselhamentos: a Bíblia, o Catecismo, as Encíclicas papais, a Hagiologia.

Os livros dirigidos à segunda infância e à primeira adolescência sobre aquelas matérias que o seduziram desde que aprendera a ler e a escrever tinham as autorias, entre outras, dos poetas Castro Alves e Gonçalves Dias; dos romancistas José de Alencar e Machado de Assis; dos historiadores Varnhagen, os Taunay (o Visconde e Afonso Escragnolle) e Capistrano de Abreu. Os textos do Professor Luís da Câmara Cascudo sobre História, Literatura e Folclore, juntamente com os trabalhos dos escritores e políticos da terra, eram leituras quase obrigatórias no ambiente escolar e cultural de Caicó e Natal, como as poetisas Auta de Souza (segundo Cascudo “a maior poetisa mística do Brasil”), Nísia Floresta (também educadora e escritora, primeira feminista da América Latina) e a então contemporânea jornalista e poetisa Palmyra Wanderley; e os políticos Pedro Velho, Alberto Maranhão, João Pessoa, Eloy de Souza, Juvenal Lamartine, José Augusto Bezerra de Medeiros, entre outros.

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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

FAMÍLIA E IDENTIDADE

CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES
1917  – 2017
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998)
Jornalista, Educador, Advogado, Político
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ALGUNS REGISTROS








(Foto em edição)







José Augusto no primeiro ano de vida
(Acervo Marcelo Câmara)

O NASCIMENTO

Às 21 horas de uma sexta-feira, 22 de junho de 1917, na cidade de Caicó, Região do Seridó, no Estado do Rio Grande do Norte, nasceu, de parto normal, com a assistência de uma parteira, na residência dos seus pais, o telegrafista José Antunes Torres (*Touros, RN, 10.6.1891 - †São Gonçalo, RJ, 12.2.1975) e Maria Câmara Torres, Liquinha (*Baixa Verde, então Distrito de Taipu, RN, 23.4.1895 - †Niterói, RJ, 25.1.1973), o menino José Augusto Torres. O casamento de José e Maria se deu, exatamente, dois anos antes do nascimento de José Augusto, a 22 de junho de 1915, na cidade de Taipu, RN. Nas núpcias, José era comerciante. O nome de solteira de sua mãe era Maria Rodrigues da Câmara Filha.



Senhor Torres, o telegrafista, já casado, em meados da década de 1920.
 (Acervo Marcelo Câmara)





Liquinha, noiva aos dezenove anos.
(Acervo Marcelo Câmara)

Desde os treze anos de idade, nos jornais que editou e dirigiu, e, nos seus trabalhos publicados, ele, raramente assinava “José Augusto Torres”, nome civil do menino e rapaz, como constava no seu Registro de Nascimento, preferindo “José Augusto da Câmara Torres”. Mas, somente em 1939, no primeiro ano da sua maioridade civil e perante o Juízo da Comarca de Caicó, ele alterou em definitivo, formal, legal e juridicamente, o seu nome para JOSÉ AUGUSTO DA CÂMARA TORRES, incluindo nele o sobrenome da mãe, pois nunca admitiu essa ausência.

BATISMO

A 17 de outubro de 1917, José Augusto é batizado na ainda Igreja de Sant’Ana, Matriz de Caicó. O templo, mais tarde, em 1940, será a Catedral de Caicó, ou de Santana. O primeiro sacramento é ministrado pelo Vigário Padre Celso Cicco. Foram padrinhos o Doutor Joaquim Ferreira Chaves, futuro desembargador e Governador do Estado (o primeiro eleito pelo voto em aberto que sucedeu “o voto de bico de pena”), e sua mulher, Dona Alexandrina Barreto Ferreira Chaves, os mesmos padrinhos de Luís da Câmara Cascudo, dezenove anos antes. Sobre a Crisma do menino, não se tem informações: onde, quando ocorreu e quem foram os padrinhos.



Matriz de Nossa Senhora de Santana, hoje Catedral, em Caicó, RN.
Foto feita por José Augusto em 6.1.1937, aos dezenove anos,
na primeira viagem à sua terra depois que a deixou, cinco anos antes.
No verso da foto, ele escreveu:
"A igreja  em que eu me batizei
e em que eu senti as primeiras grandezas da Religião". 
(Acervo Marcelo Câmara)


A FAMÍLIA CÂMARA

Estátua de João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos,
em Funchal, capital do Arquipélago da Madeira.
(Foto: Wikipedia - Acervo Marcelo Câmara)


A origem do nome “Câmara” se deu após 1419, quando o português João Gonçalves Zarco (*Portugal, 1390 - †21.11.1471) descobriu o Arquipélago da Madeira e, a partir de 1425, o Infante Dom Henrique o escolheu para explorar, colonizar e administrá-lo. Em 1460, El-Rei Afonso V deu-lhe o título de nobreza de Cavalheiro, brasão de armas e o acréscimo “da Câmara de Lobos” ao seu nome. Isto porque em sua exploração, Zarco encontrou uma lapa ou gruta, uma câmara, de lobos. Informa a História que ele nunca usou o apelido na sua forma integral, “Câmara de Lobos”, mas apenas “da Camara” (substituindo o “Zarco”). Pesquisadores assinalam que, em alguns documentos, assinou “Zargo”. Seus descendentes adotaram, exclusivamente, o “Câmara”, caindo a forma composta, que ficou em desuso. O “Câmara” permaneceu sólido, indelével, fixou-se em outros países, inclusive, com a criação e adoção de outros brasões, derivados do primeiro que vai abaixo.

Escudo d’armas, primeiro e original, de João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos,
segundo a descrição do Cancioneiro de Rezende:
Numa torre de menajem / dous lobos querem trepar /
em campo cor d’um Pumar, / que são armas de lynhajem / mui dina de nomear. /
Camara he seu apelydo em Portugal muy sabido /
& na ylha da Madeira / que sua vida primeira d’estes a tem recebido.”

(Acervo Marcelo Câmara)

Os descendentes de João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos possuíram títulos de nobreza e prosseguiram na colonização e administração do Arquipélago, tiveram e foram Morgados de ilhas e de grandes áreas de terra, na Madeira e nos Açores. O genearca da Família Câmara no Rio Grande do Norte pertencente à nona geração descendente de João Gonçalves da Câmara, “o marujo” ou “o descobridor”, como ficou conhecido – foi o Tenente Morgado da Ilha de São Miguel, Açores, Manuel Raposo da Câmara (*1686, Ilha de São Miguel, Açores, Portugal – †1765 (?), Rio Grande do Norte). Ele era eneaneto de João Gonçalves da Câmara. Manuel casou, provavelmente, em 1709, aos vinte e três anos, com a natalense Antônia da Silva (*1695, Natal, RN – 1795, idem), ela aos quatorze anos de idade.

Clementino Soares da Câmara, descendente de Manuel Raposo da Câmara e Antonia da Silva, foi fazendeiro em Santana do Matos e Taipu. Do seu casamento com Inácia Rodrigues nasceu "Jerônymo" Soares da Câmara.



Jerônimo Soares da Câmara (Seu Loló), e Maria Rodrigues da Câmara (Dona Lica)
posam nas bodas de ouro do casal, a 26 de novembro de 1939.
“Jerônimo Soares da Câmara” é nome de rua em Santo Antônio do Potengi,
Município de São de  São Gonçalo do Amarante, RN.

(Acervo Marcelo Câmara)


Jerônimo Soares da Câmara, comerciante estabelecido em Taipu, de 1911 a 1930, e sua mulher Maria Rodrigues da Câmara, do lar, são os avós maternos de José Augusto da Câmara Torres, e pais de: Maria da Câmara Torres, a Dona Liquinha; de Aprígio Soares da Câmara, professor, advogado, jurista em São Paulo, SP; e de Jaime Soares da Câmara, engenheiro agrônomo, que migrou jovem para Montes Claros, MG - os dois últimos, tios de José Augusto. Ambos, Aprígio e Jaime, viveram a maior parte de suas vidas em São Paulo e Minas Gerais, respectivamente.



Jaime Soares da Câmara, engenheiro agrônomo,
tio de José Augusto, migrou para Montes Claros, MG, onde faz
exitosa carreira profissional e nunca mais retorna ao  Grande do Norte.

(Acervo Marcelo Câmara)

Há quase trezentos anos, os membros da Família Câmara do Rio Grande do Norte, isto é, os descendentes do genearca João Gonçalves da Câmara e Antonia da Silva, e seus casamentos com os de outras famílias, na sua maioria do Rio Grande do Norte, vêm dando ao nosso País, uma plêiade de intelectuais e Homens Públicos notáveis, que integram a História e a Cultura Potiguar, Nordestina e Brasileira.

Nos séculos XIX e XX, os Câmara pontificaram nessa marca com a proeminência social e cultural: políticos (deputados provinciais/estaduais e à Assembleia Geral/federais, senadores, governadores, vice-governadores, prefeitos), administradores, causídicos, juristas, intelectuais de escol, artistas, professores, escritores, historiadores. Entre eles, destacamos:

Jerônimo Américo Raposo da Câmara, advogado, Promotor Público, Deputado Provincial e Deputado Estadual, Chefe de Polícia e Governador do Rio Grande do Norte, e magistrado. (1843-1920).
Francisco Carlos Pinheiro da Câmara, advogado, Promotor de Justiça, Juiz de Direito e Chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Norte, e Desembargador. (1859-1956).
Mário Leopoldo Pereira da Câmara. advogado, Interventor Federal no Rio Grande do Norte, de 2.8.1933 a 27.10. 1935, e Ministro de Estado da Fazenda, de 2.8,.1955 a 31.1.1956 (1891-1967). 
João Severiano da Câmara, agropecuarista, industrial, 1º Prefeito de Baixa Verde (atual João Câmara), Deputado Estadual Constituinte e Senador da República (1895-1948).
Anfilóquio Carlos Soares da Câmara, Jornalista, ensaísta e escritor. (1889-1957).
Adaucto Miranda Raposo da Câmara, jornalista, servidor público, professor, Deputado Provincial, historiador, genealogista (1898-1952).
Jaime Adour da Câmara, escritor (1898-1964).
Aprígio Soares da Câmara, tio de José Augusto da Câmara Torres, professor, jornalista, jurista, viveu a maior parte de sua vida em São Paulo, SP, um dos maiores advogados brasileiros do seu tempo  (*Santana do Matos, RN, 13.9.1883-†São Paulo, SP, 1967).



Aprígio Câmara, tio de José Augusto, após lecionar no Rio Grande do Norte,
se forma em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, São Paulo,
se integra à elite intelectual e empresarial da capital paulista,
e se torna um dos maiores advogados brasileiros.

(Acervo Marcelo Câmara)


Dom Jaime de Barros Câmara*, Cardeal Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro. (1894-1971).
Luís da Câmara Cascudo, advogado, professor, jornalista, crítico, historiador, sociólogo, antropólogo, escritor, etnólogo, etnógrafo, folclorista, tradutor, poeta. (1898-1986).
José Augusto da Câmara Torres, jornalista, educador, advogado e político (1917-1998).


Câmara Torres, em 1951, aos 33 anos. O Jornalista brilhante, o aplaudido Orador,
o ilustre Professor, o Técnico de Educação revolucionário, o Advogado consagrado,
um ano após ingressar na Política e disputar a primeira eleição.

(Acervo Marcelo Câmara)


Dom Hélder Câmara*, Bispo Auxiliar do RJ e Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, PE. Líder e ativista católico. Pensador progressista, orador, conferencista, escritor e poeta. Fundou a CNBB, lutou pela Democracia e pelos direitos humanos durante a Ditadura (1964-1985). Liderou dezenas de ações sociais no Rio de Janeiro, inclusive criando a Feira da Providência. Foi o brasileiro quatro vezes indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz (1909-1999).



Dom Hélder Câmara e Madre Tereza de Calcutá, ela, em janeiro de 2020,
          santa da Igreja Católica, ele no limiar da canonização.

       (Foto: berakash.blogspot.com.br)

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(*) Dom Hélder e Dom Jaime, antípodas na Igreja e na ideologia política, morreram sem saber que eram primos. O pai de Dom Jaime deixou o RN para lutar na Revolução Federalista no Sul do País e Jaime nasceu em Santa Catarina. A descoberta foi de Câmara Torres no final da vida.
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Neste século XXI, entre os Câmara que estão entre nós, destaque para:

Ruy Câmara, nascido em Recife, PE, escritor, consagrado romancista, dramaturgo, roteirista e sociólogo, autor do clássico contemporâneo Cantos de Outono, o romance da vida de Lautréamont, vencedor do “Prêmio Ficção 2004” da Academia Brasileira de Letras – ABL, categoria "Melhor Romance de 2004", obra editada em várias línguas e disponível em 68 países.

O escritor Ruy Câmara, honrando a sua geração dos Câmara.
 (Foto: www.ruycamara.com.br - Acervo Marcelo Câmara)

Ruy Câmara, Gerardo de Mello Mourão e
 José Saramago, Nobel de Literatura.

 (Foto www. ruycamara.com.br - Acervo Marcelo Câmara)


"Cantos de Outono é um romance monumental, aterrador e comovente. Nos dois últimos séculos, grandes nomes da literatura universal intentaram, em vão, reconstituir a enigmática trajetória do poeta e escritor Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont (1846-1870), mas quem conseguiu penetrar nos abismos do seu universo e desvelou um antiuniverso obscuro, descontínuo e não menos trágico que a realidade, foi o romancista brasileiro Ruy Câmara, que estréia neste início de século como que determinado a inspirar as gerações futuras de autores ficcionistas."
(Gerardo Mello Mourão – Poeta)


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Luis da Câmara Cascudo

Para Jorge Amado, “Câmara Cascudo foi o brasileiro mais importante do Século XX”.
Segundo Carlos Drummond de Andrade, “Se você quer saber alguma coisa, 
pergunte ao Cascudinho. Ele sabe tudo”.
Outros o veem como “O homem que descobriu o Brasil”.
É, sem dúvida, a mais ilustre personalidade da Família Câmara.
Ao primo, ele escreveu na foto:
"Ao José Augusto, afetuosamente, Luis da Câmara Cascudo"

(Acervo Marcelo Câmara)


As moedas mudam, desaparecem. O gênio permanece num legado de quase duzentas obras editadas em várias áreas
das Ciências Sociais, História, Artes, Literatura, em dezenas de países e em diversas línguas. Câmara Cascudo
foi o maior cientista de todas as Culturas Populares e de todos os Folclores do mundo.Recusou vários convites
para se candidatar à Academia Brasileira de Letras. Não quis ser Senador nem Ministro de Estado.
Foi o brasileiro que mais comendas, prêmios, honrarias e homenagens  recebeu no seu País e no exterior. 
No mundo, consagrado e laureado pelas mais importantes universidades, instituições culturais
de diversos paísews, e um dos brasileiros mais publicados.
"Eu sou apenas um professor de província” – definia-se.

(Acervo Marcelo Câmara)




Desde os treze anos de idade até o início da década de 1980,
Câmara Torres manteve correspondência com o seu mestre Câmara Cascudo.
São dezenas de cartas, cartinhas, cartões, cartõezinhos, livros com dedicatórias.
Esses diálogos familiares e intelectuais prosseguiram nas décadas de 1950 até a de 1960
de Cascudo com outro primo, Aprígio Câmara, tio de José Augusto, que vivia em São Paulo, SP.
A partir de 1972, Câmara Cascudo, e até a visão lhe faltar, escreve a Marcelo Câmara.
Esta é uma das dezenas de correspondências do genial Cascudinho ao seu primo Câmara Torres
que este último preservou em seu imenso acervo epistolar.
A influência do pensador sobre o menino de Caicó se deu durante toda a vida intelectual
do jornalista, educador, advogado e político. Aqui, Câmara Cascudo pergunta por Marcelo,
o filho mais velho de Câmara Torres, jornalista, que sempre publicou sobre Folclore,
trabalhos que eram acompanhados pelo mestre e, sempre, receberam,
através de cartas pessoais, a sua crítica e estímulo.
(Acervo Marcelo Câmara)
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A FAMÍLIA TORRES

As origens da Família e do nome “Torres” estão na Espanha, na cidade de Jahen. A maioria dos genealogistas afirma que Martim ou Diogo Torres, natural de Toledo, casou com a nobre Joana de Córdova. Dessa união, nasceram cinco filhos, todos preservando o nome “Torres”, entre eles, Diogo de Torres e Afonso de Torres, que se transferiram para Portugal.

Diogo de Torres e Afonso de Torres, filhos do genearca Diogo Torres, ambos de Málaga, se radicaram em Portugal. Em 1528, o primeiro, já nobre em Espanha, havia prestado muitos serviços ao Rei de Portugal, recebendo deste o foro de Fidalgo da Casa Real. Foi proprietário de extensas fazendas na Terra de Camões e se casou com Brites Del Castillo, natural de Burgos. Diogo e Brites tiveram vários filhos que adotaram também o apelido “Torres”, entre eles o mais velho, Afonso de Torres, "o moço", que tinha o nome do tio Afonso, era morador em Lisboa e Fidalgo da Casa do Rei Dom Sebastião. A ele a Coroa confirmou Armas dos Torres, havendo respeito aos seus serviços para o que apresentou instrumento público comprobatório da nobreza da linhagem e das Armas que lhe competiam, dado por autoridade de justiça na Vila de Valadolid. A confirmação real deu direito de uso das Armas dos Torres a todos os seus irmãos, filhos e descendentes, e declarou que ele, Afonso de Torres, era chefe delas por ser filho de Diogo de Torres, irmão mais velho dos que foram para Portugal.


O primeiro brasão da família Torres é composto por cinco torres
em ouro postas em sautor, duas em cima, duas abaixo e uma no meio,
em um fundo vermelho do escudo.

(www.zazzle.pt - Acervo Marcelo Câmara)
 
Diogo de Torres e seu irmão Afonso de Torres, o velho, após mudar para Portugal, vieram para o Brasil em 1528. Afonso casou com a cunhada Elvira Del Castillo, irmã da mulher de Diogo, com quem teve filhos que prosseguiram no apelido “Torres”. Segundo Djalmira Sá Almeida, através desses dois irmãos, a nobreza castelhana instalou-se no Brasil, donde se originaram os dois ramos da sua linhagem: a portuguesa “Torres” e a espanhola “Torrez”, este último apelido mais raro entre nós. No Rio e São Paulo são encontradas as duas linhagens e a única grafia “Torres”, originárias, como vimos de um mesmo tronco. Já no Norte e Nordeste, existem as duas grafias e a família se associou aos D’Ávila e aos Carvalho no início da colonização na Bahia. Em Pernambuco aos Sá, Rodrigues, Carvalho, Pires, Silva, Silveira, Pereira, Ferreira, profusos em Recife, nas regiões da Mata e do Agreste. Já no sertão nordestino, os Torres se associaram a vários apelidos, inclusive aos Ferreira, “que trabalhavam batendo ferro”, aos Pereira, que, em Portugal "plantavam e colhiam peras", e, no Brasil, cortavam cipós para construções trançadas de taipa. Os Nogueira, em Portugal, plantavam e colhiam nozes, mas, no Brasil viraram marceneiros, escultores, sapateiros e construtores de capelas, residências e igrejas.

Outra corrente genealógica que explica a origem do nome e da Família assevera que os “Torres” derivam dos Reis de Navarra, que também eram senhores da Villardompardo, município da Província de Jahen. Os membros da Família eram senhores de muitas terras ”que continham torres” e, por causa disto, adotaram o apelido, que, usado por gerações, virou nome de família. Dom Pedro Ruiz de Torres seria o primeiro a adotar o nome espanhol.




Professor Vicente José, aos cinquenta anos, escreve no verso da foto,

uma dedicatória ao filho José Antunes Torres:
Ao prezado e bom filho, offerece, como recordação
eterna, o seu velho pay, em prova de regozijo pelo
seus 23 anos. Angicos, 10 de junho de 1914.”

(Acervo Marcelo Câmara)


Francisco Xavier Torres e Úrsula Córdula do Sacramento são tetravós paternos de José Augusto da Câmara Torres. Francisco, nascido no final do século XVIII, deve pertencer, aproximadamente, à décima quinta geração de Diogo de Torres ou de Afonso de Torres, os dois espanhóis que chegaram ao Brasil em 1528, vindos de Portugal. José Augusto é descendente direto de um dos dois. De qual dos dois? A Genealogia ainda não esclareceu. Quase nada se sabe sobre Francisco e Úrsula. Apenas que teve um filho de nome Francisco Xavier Torres, que se casou com Maria Joaquina Lúcia da Costa, que, por sua vez, foram pais de nove filhos entre eles, Vicente José Ferreira da Costa Torres, que casou com Januária Francisca da Costa Torres (*Freguesia do Senhor Bom Jesus dos Navegantes de Touros, RN, 1869 – †Angicos, RN, 29.6.1908, falecida, portanto, aos 39 anos; solteira assinava Januária Francisca do Espírito Santo). Vicente José e Januária Francisca são os avós paternos de José Augusto.

Vicente José nasceu em 1864, provavelmente em Touros, e faleceu a 20 de abril de 1921, talvez em Angicos. Casou com Januária Francisca a 11 de fevereiro de 1885, em Angicos. O casal teve nove filhos, entre eles, José Antunes Torres, pai de José Augusto da Câmara Torres. Vicente José teve um segundo casamento. Era proprietário de terras em Santa Rita e Arco-Íris.  Foi professor de Instrução Pública Primária em São Bento de Touros (atual Touros) e Areia Branca. Mais tarde, em Angicos, agricultor e proprietário de terras a partir de 1909. Em Angicos, antiga vila, hoje município, existe a Rua Professor Vicente José Ferreira da Costa Torres.


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A FAMÍLIA ANTUNES

Os Antunes são profusos em todo o mundo. Os nossos, vindos de Portugal, habitam todos os Estados brasileiros. No Rio Grande do Norte, devem ter chegado no início do Século XIX. Há ramos em diversos municípios e regiões potiguares.
 
“Antunes” é um sobrenome patronímico, que recorda o nome do pai do seu primeiro portador. Deriva de “Antônio”. Significa “família de Antônio”, “descendentes do Antônio” ou “filho do valioso”. Trata-se de uma variação de “Antônio”. O filho deste seria chamado “Antunes”, que, às vezes, é também nome. Alguns genealogistas acreditam que “Antunes” tenha origem no universo da Igreja Católica. Se possui raiz religiosa pode significar “dado”, “doado”, “entregue”, “oferecido” ou “presenteado por Deus”. Os Antunes estão em vários países, alguns com outras grafias, como:  “Anttunes”, “Anthunes” e “Antones”.

O certo é que a raiz do nome “Antunes” provém do Latim “Antonius”, que quer dizer “aquele que é valioso” ou “digno de apreço”. Outros acreditam que a raiz do nome “Antônio” esteja no grego “antheos”, traduzido como “alimentado de flores”.


Professor Francisco Antunes da Costa (*Touros, RN, 1844 --†idem, 7.2.1904),
bisavô paterno de José Augusto.

(Acervo Marcelo Câmara)

Francisco Antunes da Costa, nascido em Touros, RN, em 1844, onde também faleceu em 7.2.1904, foi casado com Josefa Maria Antunes. São bisavós paternos de José Augusto. Eram os pais de Januária Francisca da Costa Torres, avó de José Augusto. Francisco foi negociante e professor no município de Touros, RN.

Coincidência ou curiosidade histórica: o filho de Francisco, Antônio Antunes da Costa, fazendeiro, comerciante e exportador de sal, foi vice-prefeito de Touros, na mesma época em que Jerônimo Soares da Câmara, avô materno de José Augusto,  era vereador no mesmo município.

A maioria dos genealogistas e heraldistas apontam o brasão abaixo como o primeiro dos Antunes, trazido pela Família quando chegou ao Brasil. É descrito como um castelo de prata lavrado de preto com fundo na cor vermelha. Outros existem, em diversos países, mas sempre tendo o castelo como centro.
 
A História registra que um soldado de nome Simão Antunes
lutara, heroicamente, em defesa do Imperador Romano Germânico e Rei de Espanha,
Carlos V, na Guerra de Flandres. O soberano, como prêmio, concedeu-lhe um brasão nobre
para a sua linhagem de descendentes: um castelo de prata
lavrado em preto, com fundo da cor vermelha
(Foto: www.origemdosobrenome.com.br/familia-antunes -Acervo Marcelo Câmara)


A Família Rodrigues, à qual pertencia Maria Rodrigues da Câmara (Dona Lica ou Vó Lica), avó materna de José Augusto, não foi objeto de pesquisa desta biografia, porque não havia nos acervos de Câmara Torres, transferidos ao seu filho que elaborou este trabalho, documentos (textos, fotos, anotações) que revelassem o interesse em registrar a sua origem, história e percurso no Rio Grande do Norte. Já os Antunes, família da avó paterna de José Augusto, ocupam importância na sua vida, não apenas pela fortuna documental preservada, mas pelas referências a eles que a vida inteira fez. Em 1937, numa viagem sentimental ao Rio Grande do Norte, José Augusto vai a Touros, se encontra e dias convive com tios e primos, das Famílias Câmara, Torres e Antunes. E cumpre uma prioridade: visita o túmulo do Professor Francisco Antunes da Costa, seu bisavô paterno. Muita emoção. Lágrimas.
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