terça-feira, 7 de janeiro de 2020

FAMÍLIA E IDENTIDADE


CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES

1917  –  2017
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998)
Jornalista, Educador, Advogado, Político

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ALGUNS REGISTROS








(Foto em edição)







José Augusto no primeiro ano de vida
(Acervo Marcelo Câmara)

O NASCIMENTO

Às 21 horas de uma sexta-feira, 22 de junho de 1917, na cidade de Caicó, Região do Seridó, no Estado do Rio Grande do Norte, nasceu, de parto normal, com a assistência de uma parteira, na residência dos seus pais, o telegrafista José Antunes Torres (*Touros, RN, 10.6.1891 - †São Gonçalo, RJ, 12.2.1975) e Maria Câmara Torres, Liquinha (*Baixa Verde, então Distrito de Taipu, RN, 23.4.1895 - †Niterói, RJ, 25.1.1973), o menino José Augusto Torres. O casamento de José e Maria se deu, exatamente, dois anos antes do nascimento de José Augusto, a 22 de junho de 1915, na cidade de Taipu, RN. Nas núpcias, José era comerciante. O nome de solteira de sua mãe era Maria Rodrigues da Câmara Filha.




Senhor Torres, o telegrafista, já casado, em meados da década de 1920.

 (Acervo Marcelo Câmara)






Liquinha
, noiva aos dezenove anos.

(Acervo Marcelo Câmara)

Desde os treze anos de idade, nos jornais que editou e dirigiu, e, nos seus trabalhos publicados, ele, raramente assinava “José Augusto Torres”, nome civil do menino e rapaz, como constava no seu Registro de Nascimento, preferindo “José Augusto da Câmara Torres”. Mas, somente em 1939, no primeiro ano da sua maioridade civil e perante o Juízo da Comarca de Caicó, ele alterou em definitivo, formal, legal e juridicamente, o seu nome para JOSÉ AUGUSTO DA CÂMARA TORRES, incluindo nele o sobrenome da mãe, pois nunca admitiu essa ausência.

BATISMO

A 17 de outubro de 1917, José Augusto é batizado na ainda Igreja de Sant’Ana, Matriz de Caicó. O templo, mais tarde, em 1940, será a Catedral de Caicó, ou de Santana. O primeiro sacramento é ministrado pelo Vigário Padre Celso Cicco. Foram padrinhos o Doutor Joaquim Ferreira Chaves, futuro desembargador e Governador do Estado (o primeiro eleito pelo voto em aberto que sucedeu “o voto de bico de pena”), e sua mulher, Dona Alexandrina Barreto Ferreira Chaves, os mesmos padrinhos de Luís da Câmara Cascudo, dezenove anos antes. Sobre a Crisma do menino, não se tem informações: onde, quando ocorreu e quem foram os padrinhos.



Matriz de Nossa Senhora de Santana, hoje Catedral, em Caicó, RN.
Foto feita por José Augusto em 6.1.1937, aos dezenove anos,
na primeira viagem à sua terra depois que a deixou, cinco anos antes.
No verso da foto, ele escreveu:
"A igreja  em que eu me batizei
e em que eu senti as primeiras grandezas da Religião". 
(Acervo Marcelo Câmara)


A FAMÍLIA CÂMARA

Estátua de João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos,
em Funchal, capital do Arquipélago da Madeira.
(Foto: Wikipedia - Acervo Marcelo Câmara)


A origem do nome “Câmara” se deu após 1419, quando o português João Gonçalves Zarco (*Portugal, 1390 - †21.11.1471) descobriu o Arquipélago da Madeira e, a partir de 1425, o Infante Dom Henrique o escolheu para explorar, colonizar e administrá-lo. Em 1460, El-Rei Afonso V deu-lhe o título de nobreza de Cavalheiro, brasão de armas e o acréscimo “da Câmara de Lobos” ao seu nome. Isto porque em sua exploração, Zarco encontrou uma lapa ou gruta, uma câmara, de lobos. Informa a História que ele nunca usou o apelido na sua forma integral, “Câmara de Lobos”, mas apenas “da Camara” (substituindo o “Zarco”). Pesquisadores assinalam que, em alguns documentos, assinou “Zargo”. Seus descendentes adotaram, exclusivamente, o “Câmara”, caindo a forma composta, que ficou em desuso. O “Câmara” permaneceu sólido, indelével, fixou-se em outros países, inclusive, com a criação e adoção de outros brasões, derivados do primeiro que vai abaixo.


Escudo d’armas, primeiro e original, de João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos,
segundo a descrição do Cancioneiro de Rezende:
Numa torre de menajem / dous lobos querem trepar /
em campo cor d’um Pumar, / que são armas de lynhajem / mui dina de nomear. /
Camara he seu apelydo em Portugal muy sabido /
& na ylha da Madeira / que sua vida primeira d’estes a tem recebido."
(Imagem: apodiario.com.br - Acervo Marcelo Câmara)


Os descendentes de João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos possuíram títulos de nobreza e prosseguiram na colonização e administração do Arquipélago, tiveram e foram Morgados de ilhas e de grandes áreas de terra, na Madeira e nos Açores. O genearca da Família Câmara no Rio Grande do Norte pertencente à nona geração descendente de João Gonçalves da Câmara, “o marujo” ou “o descobridor”, como ficou conhecido – foi o Tenente Morgado da Ilha de São Miguel, Açores, Manuel Raposo da Câmara (*1686, Ilha de São Miguel, Açores, Portugal – †1765 (?), Rio Grande do Norte). Ele era eneaneto de João Gonçalves da Câmara. Manuel casou, provavelmente, em 1709, aos vinte e três anos, com a natalense Antônia da Silva (*1695, Natal, RN – 1795, idem), ela aos quatorze anos de idade.

Clementino Soares da Câmara, descendente de Manuel Raposo da Câmara e Antonia da Silva, foi fazendeiro em Santana do Matos e Taipu. Do seu casamento com Inácia Rodrigues nasceu "Jerônymo" Soares da Câmara.




Jerônimo Soares da Câmara (Seu Loló), e Maria Rodrigues da Câmara (Dona Lica)

posam nas bodas de ouro do casal, a 26 de novembro de 1939.
“Jerônimo Soares da Câmara” é nome de rua em Santo Antônio do Potengi,
Município de São de  São Gonçalo do Amarante, RN.

(Acervo Marcelo Câmara)


Jerônimo Soares da Câmara, comerciante estabelecido em Taipu, de 1911 a 1930, e sua mulher Maria Rodrigues da Câmara, do lar, são os avós maternos de José Augusto da Câmara Torres, e pais de: Maria da Câmara Torres, a Dona Liquinha; de Aprígio Soares da Câmara, professor, advogado, jurista em São Paulo, SP; e de Jaime Soares da Câmara, engenheiro agrônomo, que migrou jovem para Montes Claros, MG - os dois últimos, tios de José Augusto. Ambos, Aprígio e Jaime, viveram a maior parte de suas vidas em São Paulo e Minas Gerais, respectivamente.




Jaime Soares da Câmara, engenheiro agrônomo,

tio de José Augusto, migrou para Montes Claros, MG, onde faz
exitosa carreira profissional e nunca mais retorna ao  Grande do Norte.

(Acervo Marcelo Câmara)

Há quase trezentos anos, os membros da Família Câmara do Rio Grande do Norte, isto é, os descendentes do genearca João Gonçalves da Câmara e Antonia da Silva, e seus casamentos com os de outras famílias, na sua maioria do Rio Grande do Norte, vêm dando ao nosso País, uma plêiade de intelectuais e Homens Públicos notáveis, que integram a História e a Cultura Potiguar, Nordestina e Brasileira.

Nos séculos XIX e XX, os Câmara pontificaram nessa marca com a proeminência social e cultural: políticos (deputados provinciais/estaduais e à Assembleia Geral/federais, senadores, governadores, vice-governadores, prefeitos), administradores, causídicos, juristas, intelectuais de escol, artistas, professores, escritores, historiadores. Entre eles, destacamos:

Jerônimo Américo Raposo da Câmara, advogado, Promotor Público, Deputado Provincial e Deputado Estadual, Chefe de Polícia e Governador do Rio Grande do Norte, e magistrado. (1843-1920).
Francisco Carlos Pinheiro da Câmara, advogado, Promotor de Justiça, Juiz de Direito e Chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Norte, e Desembargador. (1859-1956).
Mário Leopoldo Pereira da Câmara. advogado, Interventor Federal no Rio Grande do Norte, de 2.8.1933 a 27.10. 1935, e Ministro de Estado da Fazenda, de 2.8,.1955 a 31.1.1956 (1891-1967). 
João Severiano da Câmara, agropecuarista, industrial, 1º Prefeito de Baixa Verde (atual João Câmara), Deputado Estadual Constituinte e Senador da República (1895-1948).
Anfilóquio Carlos Soares da Câmara, Jornalista, ensaísta e escritor. (1889-1957).
Adaucto Miranda Raposo da Câmara, jornalista, servidor público, professor, Deputado Provincial, historiador, genealogista (1898-1952).
Jaime Adour da Câmara, escritor (1898-1964).
Aprígio Soares da Câmara, tio de José Augusto da Câmara Torres, professor, jornalista, jurista, viveu a maior parte de sua vida em São Paulo, SP, um dos maiores advogados brasileiros do seu tempo  (*Santana do Matos, RN, 13.9.1883-†São Paulo, SP, 1967).




Aprígio Câmara
, tio de José Augusto, após lecionar no Rio Grande do Norte,
se forma em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, São Paulo,
se integra à elite intelectual e empresarial da capital paulista,
e se torna um dos maiores advogados brasileiros.

(Acervo Marcelo Câmara)


Dom Jaime de Barros Câmara*, Cardeal Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro. (1894-1971).
Luís da Câmara Cascudo, advogado, professor, jornalista, crítico, historiador, sociólogo, antropólogo, escritor, etnólogo, etnógrafo, folclorista, tradutor, poeta. (1898-1986).



O ilustre advogado, Aprígio Câmara, que vivia na capital paulista
e que  Cascudinho chamou, certa vez, de "Conde da Câmara, Grande Primo!".
Aprígio ajudou Cascudo a planejar a viagem do etnógrafo a Portugal e África.
(Acervo Marcelo Câmara)


José Augusto da Câmara Torres, jornalista, educador, advogado e político (1917-1998).




Câmara Torres, em 1951, aos 33 anos. O Jornalista brilhante, o aplaudido Orador,

o ilustre Professor, o Técnico de Educação revolucionário, o Advogado consagrado,
um ano após ingressar na Política e disputar a primeira eleição.

(Acervo Marcelo Câmara)


Dom Hélder Câmara*, Bispo Auxiliar do RJ e Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, PE. Líder e ativista católico. Pensador progressista, orador, conferencista, escritor e poeta. Fundou a CNBB, lutou pela Democracia e pelos direitos humanos durante a Ditadura (1964-1985). Liderou dezenas de ações sociais no Rio de Janeiro, inclusive criando a Feira da Providência. Foi o brasileiro quatro vezes indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz (1909-1999).

Dom Hélder Câmara e Madre Tereza de Calcutá, ela, em janeiro de 2020,
          santa da Igreja Católica, ele no limiar da canonização.

       (Foto: berakash.blogspot.com.br)

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(*) Dom Hélder e Dom Jaime, antípodas na Igreja e na ideologia política, morreram sem saber que eram primos. O pai de Dom Jaime deixou o RN para lutar na Revolução Federalista no Sul do País e Jaime nasceu em Santa Catarina. A descoberta foi de Câmara Torres no final da vida.
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Neste século XXI, dos Câmara que estão entre nós, destaque para:

Ruy Câmara, nascido em Recife, PE, escritor, consagrado romancista, dramaturgo, roteirista e sociólogo, autor do clássico contemporâneo Cantos de Outono, o romance da vida de Lautréamont, vencedor do “Prêmio Ficção 2004” da Academia Brasileira de Letras – ABL, categoria "Melhor Romance de 2004", obra editada em várias línguas e disponível em 68 países.


O escritor Ruy Câmara, honrando a sua geração dos Câmara.

 (Foto: www.ruycamara.com.br - Acervo Marcelo Câmara)


Ruy Câmara, Gerardo de Mello Mourão e
 José Saramago, Nobel de Literatura.

 (Foto www.ruycamara.com.br - Acervo Marcelo Câmara)


"Cantos de Outono é um romance monumental, aterrador e comovente. Nos dois últimos séculos, grandes nomes da literatura universal intentaram, em vão, reconstituir a enigmática trajetória do poeta e escritor Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont (1846-1870), mas quem conseguiu penetrar nos abismos do seu universo e desvelou um antiuniverso obscuro, descontínuo e não menos trágico que a realidade, foi o romancista brasileiro Ruy Câmara, que estréia neste início de século como que determinado a inspirar as gerações futuras de autores ficcionistas."
(Gerardo Mello Mourão – Poeta)


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Luis da Câmara Cascudo

Para Jorge Amado, “Câmara Cascudo foi o brasileiro mais importante do Século XX”.
Segundo Carlos Drummond de Andrade, “Se você quer saber alguma coisa, 
pergunte ao Cascudinho. Ele sabe tudo”.
Outros o veem como “O homem
 que descobriu o Brasil”.
É, sem dúvida, a mais ilustre personalidade da Família Câmara.
Ao primo, ele escreveu na foto:
"Ao José Augusto, afetuosamente, Luis da Câmara Cascudo"

(Acervo Marcelo Câmara)



As moedas mudam, desaparecem. O gênio permanece num legado de quase duzentas obras editadas
em várias áreas 
das Ciências Sociais, História, Artes, Literatura, em dezenas de países e
em diversas línguas. Câmara Cascudo 
foi o maior cientista de todas as Culturas Populares
e de todos os Folclores do mundo. Recusou vários convites para se candidatar
à Academia Brasileira de Letras. Não quis ser Senador
nem Ministro de Estado. 
Foi o brasileiro que mais comendas, prêmios, honrarias
e homenagens  recebeu no seu País e no exterior. No mundo, consagrado e laureado
pelas mais importantes universidades, instituições culturais de diversos países,
 
e um dos brasileiros mais publicados.
"Eu sou apenas um professor de província” – definia-se.

(Acervo Marcelo Câmara)




Desde os treze anos de idade até o início da década de 1980,
Câmara Torres manteve correspondência com o seu mestre Câmara Cascudo.
São dezenas de cartas, cartinhas, cartões, cartõezinhos, livros com dedicatórias.
Esses diálogos familiares e intelectuais prosseguiram nas décadas de 1950 até a de 1960
de Cascudo com outro primo, Aprígio Câmara, tio de José Augusto, que vivia em São Paulo, SP.
A partir de 1972, Câmara Cascudo, e até a visão lhe faltar, escreve a Marcelo Câmara.
Esta é uma das dezenas de correspondências do genial Cascudinho ao seu primo Câmara Torres
que este último preservou em seu imenso acervo epistolar.
A influência do pensador sobre o menino de Caicó se deu durante toda a vida intelectual
do jornalista, educador, advogado e político. Aqui, Câmara Cascudo pergunta por Marcelo,
o filho mais velho de Câmara Torres, jornalista, que sempre publicou sobre Folclore,
trabalhos que eram acompanhados pelo mestre e, sempre, receberam,
através de cartas pessoais, a sua crítica e estímulo.
(Acervo Marcelo Câmara)
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A FAMÍLIA TORRES

As origens da Família e do nome “Torres” estão na Espanha, na cidade de Jahen. A maioria dos genealogistas afirma que Martim ou Diogo Torres, natural de Toledo, casou com a nobre Joana de Córdova. Dessa união, nasceram cinco filhos, todos preservando o nome “Torres”, entre eles, Diogo de Torres e Afonso de Torres, que se transferiram para Portugal.

Diogo de Torres e Afonso de Torres, filhos do genearca Diogo Torres, ambos de Málaga, se radicaram em Portugal. Em 1528, o primeiro, já nobre em Espanha, havia prestado muitos serviços ao Rei de Portugal, recebendo deste o foro de Fidalgo da Casa Real. Foi proprietário de extensas fazendas na Terra de Camões e se casou com Brites Del Castillo, natural de Burgos. Diogo e Brites tiveram vários filhos que adotaram também o apelido “Torres”, entre eles o mais velho, Afonso de Torres, "o moço", que tinha o nome do tio Afonso, era morador em Lisboa e Fidalgo da Casa do Rei Dom Sebastião. A ele a Coroa confirmou Armas dos Torres, havendo respeito aos seus serviços para o que apresentou instrumento público comprobatório da nobreza da linhagem e das Armas que lhe competiam, dado por autoridade de justiça na Vila de Valadolid. A confirmação real deu direito de uso das Armas dos Torres a todos os seus irmãos, filhos e descendentes, e declarou que ele, Afonso de Torres, era chefe delas por ser filho de Diogo de Torres, irmão mais velho dos que foram para Portugal.


O primeiro brasão da família Torres é composto por cinco torres
em ouro postas em sautor, duas em cima, duas abaixo e uma no meio,
em um fundo vermelho do escudo.

(Imagem: www.zazzle.pt - Acervo Marcelo Câmara)
  
Diogo de Torres e seu irmão Afonso de Torres, o velho, após mudar para Portugal, vieram para o Brasil em 1528. Afonso casou com a cunhada Elvira Del Castillo, irmã da mulher de Diogo, com quem teve filhos que prosseguiram no apelido “Torres”. Segundo Djalmira Sá Almeida, através desses dois irmãos, a nobreza castelhana instalou-se no Brasil, donde se originaram os dois ramos da sua linhagem: a portuguesa “Torres” e a espanhola “Torrez”, este último apelido mais raro entre nós. No Rio e São Paulo são encontradas as duas linhagens e a única grafia “Torres”, originárias, como vimos de um mesmo tronco. Já no Norte e Nordeste, existem as duas grafias e a família se associou aos D’Ávila e aos Carvalho no início da colonização na Bahia. Em Pernambuco aos Sá, Rodrigues, Carvalho, Pires, Silva, Silveira, Pereira, Ferreira, profusos em Recife, nas regiões da Mata e do Agreste. Já no sertão nordestino, os Torres se associaram a vários apelidos, inclusive aos Ferreira, “que trabalhavam batendo ferro”, aos Pereira, que, em Portugal "plantavam e colhiam peras", e, no Brasil, cortavam cipós para construções trançadas de taipa. Os Nogueira, em Portugal, plantavam e colhiam nozes, mas, no Brasil viraram marceneiros, escultores, sapateiros e construtores de capelas, residências e igrejas. 

Outra corrente genealógica que explica a origem do nome e da Família assevera que os “Torres” derivam dos Reis de Navarra, que também eram senhores da Villardompardo, município da Província de Jahen. Os membros da Família eram senhores de muitas terras ”que continham torres” e, por causa disto, adotaram o apelido, que, usado por gerações, virou nome de família. Dom Pedro Ruiz de Torres seria o primeiro a adotar o nome espanhol. 




Professor Vicente José, aos cinquenta anos, escreve no verso da foto,

uma dedicatória ao filho José Antunes Torres:
Ao prezado e bom filho, offerece, como recordação
eterna, o seu velho pay, em prova de regozijo pelo
seus 23 anos. Angicos, 10 de junho de 1914.”

(Acervo Marcelo Câmara)


Francisco Xavier Torres e Úrsula Córdula do Sacramento são tetravós paternos de José Augusto da Câmara Torres. Francisco, nascido no final do século XVIII, deve pertencer, aproximadamente, à décima quinta geração de Diogo de Torres ou de Afonso de Torres, os dois espanhóis que chegaram ao Brasil em 1528, vindos de Portugal. José Augusto é descendente direto de um dos dois. De qual dos dois? A Genealogia ainda não esclareceu. Quase nada se sabe sobre Francisco e Úrsula. Apenas que teve um filho de nome Francisco Xavier Torres, que se casou com Maria Joaquina Lúcia da Costa, que, por sua vez, foram pais de nove filhos entre eles, Vicente José Ferreira da Costa Torres, que casou com Januária Francisca da Costa Torres (*Freguesia do Senhor Bom Jesus dos Navegantes de Touros, RN, 1869 – †Angicos, RN, 29.6.1908, falecida, portanto, aos 39 anos; solteira assinava Januária Francisca do Espírito Santo). Vicente José e Januária Francisca são os avós paternos de José Augusto.

Vicente José nasceu em 1864, provavelmente em Touros, e faleceu a 20 de abril de 1921, talvez em Angicos. Casou com Januária Francisca a 11 de fevereiro de 1885, em Angicos. O casal teve nove filhos, entre eles, José Antunes Torres, pai de José Augusto da Câmara Torres. Vicente José teve um segundo casamento. Era proprietário de terras em Santa Rita e Arco-Íris.  Foi professor de Instrução Pública Primária em São Bento de Touros (atual Touros) e Areia Branca. Mais tarde, em Angicos, agricultor e proprietário de terras a partir de 1909. Em Angicos, antiga vila, hoje município, existe a Rua Professor Vicente José Ferreira da Costa Torres.


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A FAMÍLIA ANTUNES

Os Antunes são profusos em todo o mundo. Os nossos, vindos de Portugal, habitam todos os Estados brasileiros. No Rio Grande do Norte, devem ter chegado no início do Século XIX. Há ramos em diversos municípios e regiões potiguares.
  
“Antunes” é um sobrenome patronímico, que recorda o nome do pai do seu primeiro portador. Deriva de “Antônio”. Significa “família de Antônio”, “descendentes do Antônio” ou “filho do valioso”. Trata-se de uma variação de “Antônio”. O filho deste seria chamado “Antunes”, que, às vezes, é também nome. Alguns genealogistas acreditam que “Antunes” tenha origem no universo da Igreja Católica. Se possui raiz religiosa pode significar “dado”, “doado”, “entregue”, “oferecido” ou “presenteado por Deus”. Os Antunes estão em vários países, alguns com outras grafias, como:  “Anttunes”, “Anthunes” e “Antones”.

O certo é que a raiz do nome “Antunes” provém do Latim “Antonius”, que quer dizer “aquele que é valioso” ou “digno de apreço”. Outros acreditam que a raiz do nome “Antônio” esteja no grego “antheos”, traduzido como “alimentado de flores”.



Professor Francisco Antunes da Costa (*Touros, RN, 1844 --†idem, 7.2.1904),

bisavô paterno de José Augusto.

(Acervo Marcelo Câmara)

Francisco Antunes da Costa, nascido em Touros, RN, em 1844, onde também faleceu em 7.2.1904, foi casado com Josefa Maria Antunes. São bisavós paternos de José Augusto. Eram os pais de Januária Francisca da Costa Torres, avó de José Augusto. Francisco foi negociante e professor no município de Touros, RN.

Coincidência ou curiosidade histórica: o filho de Francisco, Antônio Antunes da Costa, fazendeiro, comerciante e exportador de sal, foi vice-prefeito de Touros, na mesma época em que Jerônimo Soares da Câmara, avô materno de José Augusto,  era vereador no mesmo município.

A maioria dos genealogistas e heraldistas apontam o brasão abaixo como o primeiro dos Antunes, trazido pela Família quando chegou ao Brasil. É descrito como um castelo de prata lavrado de preto com fundo na cor vermelha. Outros existem, em diversos países, mas sempre tendo o castelo como centro.
  
A História registra que um soldado de nome Simão Antunes
lutara, heroicamente, em defesa do Imperador Romano Germânico e Rei de Espanha,
Carlos V, na Guerra de Flandres. O soberano, como prêmio, concedeu-lhe um brasão nobre
para a sua linhagem de descendentes: um castelo de prata
lavrado em preto, com fundo da cor vermelha
(Imagem: www.origemdosobrenome.com.br/familia-antunes -Acervo Marcelo Câmara)


A Família Rodrigues, à qual pertencia Maria Rodrigues da Câmara (Dona Lica ou Vó Lica), avó materna de José Augusto, não foi objeto de pesquisa desta biografia, porque não havia nos acervos de Câmara Torres, transferidos ao seu filho que elaborou este trabalho, documentos (textos, fotos, anotações) que revelassem o interesse em registrar a sua origem, história e percurso no Rio Grande do Norte. Já os Antunes, família da avó paterna de José Augusto, ocupam importância na sua vida, não apenas pela fortuna documental preservada, mas pelas referências a eles que a vida inteira fez. Em 1937, numa viagem sentimental ao Rio Grande do Norte, José Augusto vai a Touros, se encontra e dias convive com tios e primos, das Famílias Câmara, Torres e Antunes. E cumpre uma prioridade: visita o túmulo do Professor Francisco Antunes da Costa, seu bisavô paterno. Muita emoção. Lágrimas.
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