domingo, 12 de janeiro de 2020

A TRANSFERÊNCIA PARA NATAL

A 6 de fevereiro de 1932, o Senhor Torres e o menino José Augusto, com 14 anos chegam a Natal, dirigindo-se à Rua Coronel Bonifácio, 679, no bairro Cidade Alta, Natal. Não se sabe se este endereço é de algum amigo ou parente dos pais de José Augusto. A mãe, Dona Liquinha, e o filho Marconi, então com oito anos, permanecem em Caicó. Dalvanira, a irmã de 13 anos, vai morar com os avós maternos, Seu Loló e Dona Lica, em Baixa Verde, atual João Câmara, a menos de oitenta quilômetros de Natal. Dias depois, José Augusto presta exames de Admissão ao Curso Ginasial, sendo admitido, como aluno interno, no prestigioso Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas. “Aprovado plenamente com grau 9”.

                Aos quatorze anos, em Natal, já não se conformava com a ausência
                 do patronímico materno. E, sempre que podia, se identificava e escrevia
              “José Augusto da Câmara Torres”.
               (Acervo Marcelo Câmara)


Conta-se que o telegrafista José Antunes Torres, chefe da Estação de Caicó, recebera uma mensagem cifrada num telegrama. Nesta mensagem “era planejado, numa tocaia, o assassinato do Prefeito nomeado pela Revolução, Dinarte Mariz”. O pai de José Augusto teria avisado Dinarte da emboscada, antes de entregar a mensagem ao destinatário. Os criminosos suspeitaram da violação da correspondência e ameaçaram matar o pai de José Augusto. Assim, Dinarte providenciou junto ao Governo Federal a transferência urgente, camuflada e segura, do telegrafista para fora de Caicó. Mas isto somente se deu a 11 de agosto de 1932, quando José Augusto já cursava o segundo semestre no Santo Antônio, em Natal. No dia seguinte, o Sr. Torres, o telegrafista, assume a Agência em Areia Branca, onde vai residir com a mulher e Marconi. Nem o Prefeito de Caicó, Dinarte Mariz, nem o telegrafista, jamais falaram, oficial ou publicamente, sobre o episódio. História de alguns contemporâneos, nunca publicada. Certo é que José Augusto teria de se transferir para a capital para fazer o Curso Ginasial. E o fez antes da mudança da família. O número 10, e último, de O Ideal da Juventude, de 11 de fevereiro de 1932, noticiava (na grafia original):



JOSÉ AUGUSTO TORRES
Para Natal, onde vae continuar os seus estudos,
 transportou-se sexta-feira da semana passada
 este nosso jovem companheiro de lides jornalísticas.
Fundador e Diretor do “Ideal da Juventude”,
José Augusto revelou uma inteligência
 que desabrocha promissôramente.
Auzentando-se, deixou uma lacuna impreenchível
 porque, trabalhador e inteligente, no gremio
dos complementaristas ninguém o igualava em actividade.
 Contando que não nos deixará sem sua assídua colaboração,
 fazemos votos de completo êxito nos seus estudos.


                                                               
Para Natal, onde vae continuar os seus estudos, transportou-se sexta-feira da semana passada este nosso jovem companheiro de lides jornalísticas. Fundador e Diretor do “Ideal da Juventude”, José Augusto revelou uma inteligência que desabrocha promissôramente. Auzentando-se, deixou uma lacuna impreenchível porque, trabalhador e inteligente, no gremio dos complementaristas ninguém o igualava em actividade. Contando que não nos deixará sem sua assídua colaboração, fazemos votos de completo êxito nos seus estudos.


A 19 de fevereiro de 1932, José Augusto ingressa no Colégio Santo Antônio, vai ser um aluno interno, assiste a primeira aula da primeira série do Curso Ginasial. Terá como colega de turma Eugênio de Araújo Sales, um menino, como ele, do interior do Estado. Proveniente de Acari, que fica cerca de 60km de Caicó, Eugênio, então com onze anos, já anunciava aos companheiros de classe: “Quero ser padre. Vou ser padre. É o que desejo. Não tenho qualquer dúvida”. E foi. Faleceu em 2012, como Cardeal Emérito da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Eugênio pertencia aos mesmos Araújo do Seridó, família da mãe de Tudinha. Na mesma sala de aula, Túlio Tavares, pianista, irmão mais velho do brilhante violoncelista, compositor e maestro Mário Tavares, o maior intérprete e divulgador de Villa Lobos, aqui e fora do País. Mário era o caçula e Carlos, o irmão do meio, violinista. Os três, sobrinhos-netos do grande Alberto Maranhão, duas vezes governador do Estado e o grande mecenas da Cultura Potiguar. Destino: Túlio e Marcelo serão colegas no Gabinete do Ministro de Estado do Trabalho, em Brasília, na segunda metade dos anos 1970. Em Natal, José Augusto verá gelo pela primeira vez.

Dalvanira, a irmã,
aos treze anos, já em Baixa Verde.
(Acervo Marcelo Câmara)

Logo, José Augusto faz boas amizades, se destaca no grupo pela inteligência, cultura, criatividade e intensa atividade. Exibe os seus dons de orador e jornalista. O Colégio Santo Antônio, de Natal, criado em 1904, era propriedade da Diocese de Natal e foi entregue, em 1929, aos Irmãos Maristas. A 1º de março de 1933, aluno há poucos dias, o menino José Augusto, calouro, vindo do interior, é o orador oficial na solenidade do 28º aniversário da instituição. Meses depois, José Augusto é novamente alçado à tribuna, representando os seus colegas, quando da solenidade de inauguração do Estádio de Futebol do Colégio, para dizer, como representante do grêmio esportivo dos alunos internos, do significado e da alegria de todos por aquele novo espaço esportivo. José Augusto vai discursar e incentivar o Nordeste Futebol Clube, time dos alunos internos, no jogo de abertura da arena contra a equipe visitante do Ypiranga. Parece que o Nordeste foi o vencedor, porque, novamente, meses depois, perante professores, alunos e os prefeitos de Natal e municípios vizinhos, José Augusto fala em nome dos colegas e do Nordeste Futebol Clube contra outra equipe, quando o orador enfatiza: “Aqui estou pela segunda vez para apresentar o Nordeste. Os internos que hoje se batem constituem um time que ainda não se viu pisar em campo de luta para sofrer um revez”. A 15 de novembro, nas comemorações da Proclamação da República, de novo, ele é o orador dos internos.

Em 1932, aos 14 anos, com o uniforme de gala do Colégio Santo Antônio, em Natal.
(Acervo Marcelo Câmara)

Falas dos 14 aos 15 anos
de 1º.3 a 15.11.1932
no Colégio Santo Antônio
em Natal, RN


•    A 1º.3.1932, no aniversário do Colégio Sto. Antônio.
•    Em data festiva de 1932, na inauguração do Estádio de Futebol do Colégio Sto. Antônio.
•    Em 1932, num segundo jogo, em nome da equipe do Nordeste Futebol Clube.
•    A 15.11.1932, nas comemorações da Proclamação da República.

Mas, no Colégio Santo Antônio, não apenas o orador se exibe com sucesso. A terceira edição do jornal O Sete de Setembro, de 4.9.1932, “Órgão dos alunos do Colégio Santo Antonio”, um tabloide de oito páginas, traz, como principal matéria de capa, o artigo Trabalhemos, assinado por José Augusto. Trata-se de um longo texto de louvor ao Trabalho como bem, dom e dote, como supremo valor a ser considerado por uma Nação livre e democrática, suporte do seu desenvolvimento. José Augusto exalta e convoca a juventude marista ao estudo consciente e ao labor responsável, produtivo, socialmente eficaz. O artigo mancheteia a primeira página para concluir-se igualmente extenso na quarta. O segundo número de O Sete de Setembro, que saíra no mesmo dia e mês do ano anterior, 1931, quando José Augusto ainda estava em Caicó, tinha o formato menor, A4, mas José Augusto além de lê-lo com interesse, o preservava em seus arquivos.

No Colégio Santo Antônio, em Natal, como se vê,  José Augusto se afirma como estudante aplicado, estudioso, um dos primeiros da turma, e, principalmente o jovem participativo, o orador e o jornalista que surge na sua Caicó.



José Augusto, aluno do Santo Antônio, participa, a 24 de outubro de 1932, em Natal,
da Passeata Escolar, quando se comemorava o segundo aniversário da Revolução.
(Acervo Marcelo Câmara)

No final de 1932, José Augusto, após os exames ao término do primeiro ano do Curso Ginasial, José Augusto recebe as notas: “Média geral 90”, aprovado para se matricular no segundo ano. Mas não continua no Santo Antônio, pois a Família irá se mudar para Niterói.

Joaquim Inácio Torres (1874-1938), “Seu Torres”, membro da grei dos Torres potiguares, vivia em Natal, farmacêutico e ilustre professor do Ateneu Norte-rio-grandense, era uma figura estimada e folclórica na Capital. Câmara Cascudo em O tempo e eu, conta uma deliciosa história, de Humor bem nordestino, ocorrida após a transferência do telegrafista, pai de José Augusto, e Família, para o Rio, durante o Levante Comunista de 1935 em Natal:
Eram 18h30m de 23 de novembro de 1935, em Natal. Seu Torres (o Joaquim Inácio) residia na Avenida Rio Branco, próximo ao quartel e, após o jantar, coloca a cadeira na calçada para fumar o seu charuto.
Passou um cabo do exército e vendo aquela tranquilidade, segredou-lhe:
- Seu Torres é melhor o senhor entrar. Vai começar uma revolução no quartel e deve haver tiroteio.
- Revolução, é? Está certo, obrigado.
Não perguntou que revolução era, nem para que e meteu-se na sala. Meia hora depois, como nada ocorresse, levou a cadeira para fora e continuou fumando. Passou um soldado correndo e Torres gritou:
- Como é? Essa revolução vem ou não vem? Comecem logo, que coisa mais demorada!
- Vai rebentar logo, Seu Torres, mas não se arrisque, entre...
E saiu convencido de que o velho professor do Ateneu estava inteiramente sabedor da conspiração.
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