segunda-feira, 30 de março de 2020

A POLÍTICA: CIÊNCIA E ARTE. LIDERANÇA, TRABALHO E SERVIÇO.

CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES
1917  – 2017
José Augusto da Câmara Torres
(* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998)
Jornalista, Educador, Advogado, Político
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IDEOLOGIA E CONDUTA

Com a redemocratização do País em 1946, Câmara Torres, jornalista militante há mais de três lustros, com anos de magistério na capital Niterói, historiador e escritor com livro editado e muita matéria publicada, orador respeitado, estudioso da Filosofia, do Direito, da Sociologia e da Ciência Política; e mais: profissional da Educação; advogado com importantes vitórias nos tribunais – já havia superado, fazia muitos anos, o idealismo juvenil, a euforia e os arroubos ideológicos, sentimentais e de nacionalismo, bem como as tentações do puritanismo católico e das xenofobias de um patriotismo quase cego. Era um chefe de família com três filhos, havia lido e refletido muito, amadurecido como cidadão e trabalhador intelectual. Ingressara no Partido Social Democrático – PSD, um dos braços getulistas, liberal e conservador, comandado no Estado do Rio pelo genro de Vargas, o Comandante Ernâni do Amaral Peixoto, ex-interventor por oito anos. O outro braço, trabalhista, social-democrata, era o PTB, lugar do sindicalismo e reformista, mais tarde, com Jango e Leonel Brizola, socialista democrático.

6.1.1959. Identidades. Logo após a sua posse, Roberto Silveira (PTB), ao centro, vai a Angra dos Reis,
em companhia do Deputado Estadual Câmara Torres (PSP), reeleito, o segundo à esq. do Governador.
Roberto vai ver de perto a realidade angrense e ouvir as demandas da população. Um almoço reúne
as principais lideranças políticas locais no pátio do Grupo Escolar Lopes Trovão.
Na mesa, entre o Governador e o Deputado, está o Prefeito Jorge Whishart (UDN).

(Acervo Marcelo Câmara)

Câmara Torres continuava católico, nacionalista, anticomunista, porém a Democracia, plural e representativa, invadira definitivamente sua mentalidade políticas, bem como a sua capacidade de dialogar e debater com gente de outras crenças e ideologias, doutrinas e partidos. Também se assentam em suas ideias e conduta, definitivamente, além dos valores democráticos e princípios republicanos, o respeito e a tolerância para conviver com os diferentes e contrários, uma disposição para o diálogo, o debate, concorrer e disputar, uma notável habilidade política para o entendimento e a convergência. E, ainda, um raro talento para a criatividade, para ousar, inovar e construir, transitando, com personalidade e segurança, nos vários terrenos partidários, nos universos de poder, nas diversas esferas e áreas do Estado. Enfim, se quisermos desenhar um perfil ideológico e político de Câmara Torres na maioridade, o lugar pelo qual optou no espectro partidário, quando ingressa na Política em 1946, e ratificada por toda a vida, poderíamos afirmar que ele foi um homem de Centro, Liberal, mas não da “Direita Tarada”, definida por Darcy Ribeiro, onde o mercado é o deus da sociedade. Mas, ao contrário, a vida social e econômica devem ser regradas sob a égide da Lei, da Justiça, do Bem Comum, do interesse social. Prezava e zelava pelo Estado Democrático de Direito. Era um homem profundamente democrata, amante da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, solidário, de grande sensibilidade social, que pugnava pela liberdade de expressão, a livre iniciativa e o livre mercado, pelo pluripartidarismo, por eleições gerais livres, em todos os níveis, Justiça Social e pelo Desenvolvimento socioeconômico sustentável. Deu prioridade, em toda a sua vida pública, à defesa dos Direitos Civis e Culturais, individuais e coletivos. Resumindo o seu caráter e a sua personalidade: foi um Humanista, discípulo de Jacques Maritain e .Tristão de Athayde.

Já rapaz, compreendi porque e como o Integralismo, um regime autoritário, de partido único, de restrições, antidemocrático, fascinou aquele menino nordestino chegado do Nordeste pobre, sem esperança. Bem como grande parte  da Juventude da década de trinta. As atrações estavam, principalmente, poderiam ser resumidas no lema do Movimento: "Deus, Pátria e Família". Católico, consciente, responsável, militante; apaixonado pelo seu País, nacionalista no pensamento e nas ações; também tinha da Família, um conceito e um lugar primacial para a formação e o desenvolvimento do indivíduo. Nada além disto. Distante dele o racismo, o preconceito, os extremismos de qualquer natureza, as ditaduras. O seu radicalismo, saudável e profundo, explicavam-se na semântica e na Linguística sincrônica e diacrônica: seriedade, as causas das cousas, as raízes, do Latim "radice". Resumiam-se e cingiam-se ao Cristianismo, ao Brasil, à Cidadania, ao núcleo social Família. 


Janeiro de 1956. Adhemar de Barros visita o seu amigo
e correligionário Deputado Câmara Torres em Angra dos Reis.
Na foto, estão no Porto dda cidade, no encerramento
de um torneio internacional de caça submarina.
(Acervo Marcelo Câmara)

As concepções e o pensamento político de Câmara Torres irá se moldar sobre o tripé: conhecimento, arte e serviço. Ou seja, as suas ideias e a sua ação política expressarão sempre os conceitos e princípios que acreditava e praticava; irá se revelar na técnica e na arte de legislar, criticar, fiscalizar e governar; e se efetivará, com repercussão, consequente e positiva, na sua vontade e energia para se doar, para servir às comunidades que representava como Homem Público. Com o Golpe Militar de 1964, preferiu sacrificar, parcial e temporariamente, a sua ideologia democrática, transigir nas artes da Política, para, dentro do partido que apoiava o governo militar, trabalhar pela redemocratização, pelo retorno do Estado Democrático de Direito em sua plenitude, pela volta das eleições gerais e livres – tudo em função das regiões e municípios que representava, comunidades pobres, com precária infraestrutura de serviços públicos, carentes da ação dos governos estadual e federal para se desenvolver. Isto é, na Oposição, como Deputado Estadual, julgava, iria apenas ser oposição, mais um combatente com causa, mas sem armas, e não conseguiria dialogar com o regime de exceção, contribuir, construtivamente, para a abertura democrática, como realmente o fez nos seus limites de Político, e, em consequência, não atenderia as demandas da região que representava. Mesmo filiado, após 1965, quando foram extintos os partidos políticos, à Aliança Renovadora Nacional – ARENA, e, depois, ao Partido Democrático Social – PDS, dos quais foi dirigente regional, sofreu insólito Inquérito Policial Militar – IPM, foi preso no Colégio Naval, em Angra dos Reis, foi perseguido pelos militares, demitido, em 1971, do cargo de Secretário de Estado por ordem irracional, expressa e intransigente, do General Walter Pires, cumprida pelo Governador Raimundo Padilha.

A ÉTICA, A EDUCAÇÃO E A CULTURA:
FUNDAMENTOS E PRIORIDADES


Os fundamentos da sua ação política residiam na consideração à Ética e seus principais alicerces, eternos valores, fundamentos e conceitos: a liberdade, a dignidade humana, o bem e o mal, o bom, o justo, o certo, o pensamento, o agir, Deus e as religiões, a moral, o direito, a lei, entre outros. Elegeu para esta ação política, o estudo de dois processos, a dedicação a dois movimentos, que sempre julgou fundamentais para a felicidade e o progresso humano e social: a Educação e a Cultura. A Educação, realizada no Ensino público, universal e gratuito, e na formação do cidadão livre, consciente, responsável, sujeito e participativo do seu tempo; a Cultura como criação e expressão, individual e coletiva, dos seus sonhos, ideias, projetos, dúvidas e desafios, reflexões e propostas – traduzida em soluções e instrumentos de vida e de convívio, sempre no sentido do crescimento holístico do indivíduo e do grupo no qual ele está integrado.



Junho de 1955. O Governador Miguel Couto Filho, do PSD, no primeiro plano à dir., visita a Assembleia Legislativa.
No centro, o Deputado Câmara Torres, do PSP; atrás deste, o Deputado Raul de Oliveira Rodrigues (PSP);
e à esq., o Deputado José Kezen (PSD).
(Acervo Marcelo Câmara)

FIDELIDADE, DOAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Quem conheceu a ação política de José Augusto da Câmara Torres, da juventude à maturidade, pôde constatar três principais marcas, características, inarredáveis, flagrantes, da sua conduta: a fidelidade suprema aos seus representados, cidadãos e regiões que o elegiam; a defesa e promoção dos direitos e demandas legítimas e lícitas, individuais coletivas, fossem eles seus eleitores ou não; a doação absoluta, inegociável, às cidadãs e cidadãos, aos municípios que lhe outorgavam um mandato; e o seu trabalho incessante, cotidiano, pelo desenvolvimento humano, político, social e econômico do Estado do Rio de Janeiro. Nestas páginas do Centenário de Câmara Torres, o internauta poderá comprovar a sua atividade plural, diversificada, missionária, franciscana até, em favor da Cidadania e do Progresso fluminenses.


Em 1960, a bordo do Patrício, no cais de Paraty, RJ,
no segundo mandato de deputado estadual.
(Acervo Marcelo Câmara)


A CARREIRA POLÍTICA

Nas décadas de 1940 e início dos anos 1950, em Angra dos Reis e Região, “fazia e desfazia” o chefe político Doutor Moacyr de Paula Lobo, do PSD, que era um grande médico, um bom Prefeito nomeado de 1938 a 1945, ex-Deputado Estadual Constituinte de 1946, a quem a Terra de Raul Pompeia muito deve. O Técnico de Educação, Chefe da 1ª Região Escolar do Estado do Rio de Janeiro, Professor e Doutor José Augusto da Câmara Torres, sempre teve boas relações e o apoio do jovem Chefe da 1ª Região Escolar. Fora seu amigo, e as considerações e expressões de respeito e apreço eram mútuas. Curiosamente, a 28 de outubro de 1945, o Jornal do Brasil, ao divulgar a lista dos candidatos do PSD fluminense nas eleições de 3 de dezembro daquele ano, publicou o nome de José Augusto da Câmara Torres à Assembleia Legislativa. O nome de Moacyr de Paula Lobo não constava da matéria. Já em 20 de abril de 1946, na pré-convenção do PSD de Angra dos Reis, que indicaria, como indicou, Antônio José da Silva Jordão (Antonico Jordão) à Prefeitura. Câmara Torres fora, ao lado de Moacyr, os dois principais oradores e os mais aplaudidos nessa Reunião. Os dois haviam feito um acordo de cavalheiros: o Doutor José, como o povo o chamava, combinou com o Doutor Moacyr que o apoiaria nas eleições em 1946 para Assembleia Legislativa Estadual Constituinte, e, quatro anos depois, no pleito de 1950, Câmara Torres seria o candidato do PSD à Assembleia Legislativa com o apoio de Moacyr. Selou-se o pacto, um acordo político-partidário, de cavalheiros, sem disputas em 1946. Câmara Torres apoiou o Doutor Moacyr em 1946. Mas na eleição seguinte, o poderoso e voluntarioso coronel político não quis cumprir o acordo e decidiu concorrer novamente, rompendo, unilateralmente o acordo. O PSD de Angra dos Reis era pequeno para os dois.

A edição de 4.4.1950 do jornal carioca Tribuna da Imprensa publicou a seguinte nota, que vai abaixo, em fac-símile:




Em 1950, Câmara Torres já era um Homem Público de respeitabilidade e prestígio, em consequência do seu trabalho de vanguarda na Educação no Extremo Sul Fluminense, e se transformava numa forte e irreversível liderança política. Magoado e traído, Câmara Torres, então, funda, em Angra e nos outros municípios da Região, o Partido Social Progressista – PSP, criado por Adhemar de Barros, em São Paulo, quatro anos antes. Neste mesmo ano, constrói, em toda a Região, a surpreendente Coligação PSP-PTB-UDN. e venceria, em outubro, as eleições em Paraty com o médico Doutor Derly Ellena, do PTB, derrotando o imbatível PSD, de Jango Pádua e de José Calixto. Após instalar os Diretórios do PSP em Angra dos Reis e Paraty, a 11 de junho de 1950, sob a sua iniciativa e mobilização, foi instalado do Diretório do PSP de Itaverá, atual Rio Claro. Em seguida, Câmara Torres criou o Diretório do PSP em Mangaratiba.

A edição de 16.8.1950, do jornal O Litoral, de Angra dos Reis, publica Comunicado do Diretório Municipal do PSP, tratando das boas expectativas acerca da eleição de Câmara Torres à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, em virtude da boa receptividade, simpatia e apoio que o seu nome vinha recebendo em toda parte da Terra de Lopes Trovão, e mesmo nos municípios vizinhos. O texto saudava a Chapa coligada PSP-PTB, com Getúlio Vargas para a Presidência da República, Câmara Torres para Deputado Estadual e Ivair Nogueira Itagiba para Deputado Federal. O jornal O Litoral, fundado e editado, na década de 1940, pelo jornalista e poeta angrense Brasil dos Reis, não apoiava a candidatura de Jonas Bahiense Lyra à Câmara Federal.

Em 1950, Câmara Torres não foge ao combate. Estimulado por líderes comunitários e com apoio popular, aceita o desafio, inimaginável pelos observadores políticos, e concorre com o temido e imbatível Moacyr de Paula Lobo. Resultado: ambos não se elegem. O consagrado médico e político amaralista Paula Lobo tem 2.331 votos; e o educador, jornalista e advogado Câmara Torres, 1.261. Está consolidada a rivalidade política entre os dois, que vai se estender em Angra indefinidamente, para além da morte do Doutor Moacyr na década de 1960.

A 27 de setembro de 1950, Câmara Torres se licencia, sem vencimentos, por quarenta dias do cargo de Técnico de Educação, para se dedicar à campanha de sua primeira candidatura a Deputado Estadual, pelo Partido Social Progressista – PSP, nas eleições daquele ano, após deixar o Partido Social Democrático - PSD. Obtém 1261 votos, não sendo eleito por ter deixado de receber menos de uma centena de votos. Câmara Torres funda o PSP em Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro e Mangaratiba.

Na Sessão de 18 de outubro de 1950 da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, nos estertores da legislatura, o Deputado Vasconcelos Torres, do PSD, cometeu um infame, sujo e imoral pronunciamento, calunioso, injurioso e difamatório, integralmente criminoso, contra o Técnico de Educação, Câmara Torres. Ocupou a Tribuna da Casa para, solitariamente, vituperar, vomitar mentiras e ofensas, opróbrios à honra de Câmara Torres, atingindo a sua dignidade e o seu caráter, lançando doestos contra “o melhor Técnico de Educação do Estado”, segundo a própria Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Logo ele, o “Vasconcelos”, que fora colega e “amigo” de Câmara Torres no Curso Pré-Jurídico do Liceu Nilo Peçanha e na Faculdade de Direito de Niterói e que sempre se declarou um admirador da inteligência, da conduta, da Cultura, da integridade moral e da capacidade intelectual de José Augusto da Câmara Torres.

Vasconcelos não recebeu, durante o seu longo, mentiroso e cretino discurso, um aparte sequer de apoio ou solidariedade. Os xingamentos chegaram à profusão. Somente o Deputado Paula Lobo, derrotado e ressentido, pediu um aparte para criticar a campanha do candidato da UDN ao Governo do Estado, Senhor Prado Kelly. À época, o Deputado Paula Lobo já dava sinais de um cadáver político insepulto em Angra dos Reis e no Extremo Sul do Estado: não conseguiu se reeleger à Assembleia e o seu declínio político-eleitoral era flagrante e de um futuro infeliz previsível. E, oito anos depois, despediu-se da vida política com uma ridícula votação tentando uma cadeira na Assembleia, derrotado novamente, desta vez pelo próprio Câmara Torres. Antes, no início dos anos 1950, Amaral Peixoto dera a Paula Lobo um prêmio de consolação: nomeara, o médico, Conselheiro (à época, “Ministro”) do Tribunal de Contas do Estado, emprego vitalício, mesmo não sendo Bacharel em Direito, o que se afigurava uma anomalia funcional.

Câmara Torres não respondeu, direta ou indiretamente, o que poderia ter feito através de um Parlamentar do PSP, o imoral discurso de Vasconcelos Torres. E teria munição farta para isto, bastando recorrer às impublicáveis “façanhas” do estudante e, depois, acadêmico, João Batista de Vasconcelos Torres, que fazia parte do seu grupo de colegas no Liceu e, depois, na Faculdade. Desde o Pré-Jurídico, e até a sua morte em 1982, ele insistia em chamar José Augusto de “primo”, por conta do patronímico, o que não procedia, pois os ramos genealógicos eram longínquos; ou de “meu querido irmão”, devido ao coleguismo iniciado nos bancos do Liceu Nilo Peçanha em 1937. Mais tarde, em 1962, ingressando no Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, e, três anos depois, filiando-se à Aliança Renovadora Nacional – ARENA, Vasconcelos recebeu apoio e votos de Câmara Torres para sua eleição ao Senado, em 1962 e 1970.

As golfadas tribunalescas de Vasconcelos Torres apenas ratificavam as atitudes e a vociferação odiosa, canina, feroz, criminosa, feita pelo correligionário e aliado Paula Lobo em Angra dos Reis, a partir de 1950, quando Câmara Torres funda o PSP e disputa com este último uma cadeira à Assembleia Legislativa. Paula Lobo ocupava, quase que diariamente os alto-falantes da cidade e as páginas dos pasquins que patrocinava, para ofender a honra de Câmara Torres, com agressões de toda a natureza. A população ignorava os vitupérios. Não votou em Paula Lobo e este, “o sagrado coronel imbatível” não foi eleito.



2.11.1952. Roberto Silveira (PTB), Secretário de Estado do Interior e Justiça, do Governo Amaral Peixoto (PSD),
visita Angra dos Reis. Num almoço no Palace Hotel, reúnem-se, com ele, autoridades
e lideranças políticas locais. Câmara Torres, fundador e Presidente do PSP angrense e amigo do Roberto,
está à direita do trabalhista.
(Acervo Marcelo Câmara)

O inconformismo do PSD, personalizado no pornográfico discurso de Vasconcelos Torres em 1950, devia-se ao fato de Câmara Torres, traído no acordo que fizera com Paula Lobo, deixara o PSD, desvinculara-se do Amaralismo para fundar em Angra e em todo o Sul Fluminense, o PSP da nova liderança nacional que era Adhemar de Barros. Às vésperas do pleito de 1954, quando Câmara Torres já havia fundado e presidia o PSP de Angra dos Reis, o PSD insistiu para que ele deixasse o partido de Adhemar e voltasse ao seio sinistro do PSD. Câmara Torres declinou do convite e persistiu no PSP. O prestígio e a popularidade de Câmara Torres cresciam dia a dia em decorrência do seu belíssimo, estupendo trabalho pela Educação Pública na Região, que vaticinava a derrocada da dupla Paula Lobo e Amaral Peixoto, que se efetivou nas eleições de 1954 e seguintes.

Em Angra dos Reis, a estrondosa vitória da Coligação PSP-UDN-PTB viria quatro anos depois, em 1954, com a acachapante vitória de Salomão Reseck (UDN) sobre Paula Lobo (PSD) para a Prefeitura, de Câmara Torres (PSP) para Assembleia Legislativa, de Jonas Bahiense Lyra (PTB) para a Câmara Federal, e a derrota do Prefeito João Gregório Galindo (PSD) para Deputado Estadual.

Na foto, em 1954, Salomão Pedro Reseck, candidato a Prefeito
pela Coligação Popular e Democrática de Angra dos Reis
- PSP-UDN-PTBfala em grande comício no centro da cidade.
É eleito com esmagadora votação. Atrás dele,
à dir., Câmara Torres também conquista
o seu primeiro mandato à Assembleia Legislativa.
(Acervo Marcelo Câmara)

Não adiantaram os xingamentos quase diários do Doutor Moacyr pelos alto-falantes da cidade. Era o início, sem recuo, do declínio do PSD e do Amaralismo em todo o Extremo Sul Fluminense. Tal Coligação, liderada por Câmara Torres, reinou, vitoriosamente, na Região, até a extinção dos partidos que se seguiu ao Golpe Militar de 1964, quando as lideranças locais e regionais se dispersaram e se dividiram em ARENA 1 e ARENA 2, e, depois, em ARENA e MDB. Após 1970, quando abandona as disputas eleitorais, a liderança e influência política de Câmara Torres, independente do esfacelamento partidário, permanece no Extremo Sul do Estado até a década de 1990, mesmo ele não exercendo mais mandatos eletivos.

O ódio e a revanche do Doutor Moacyr afloram mais seriamente antes das eleições de 1954, mais precisamente em novembro de 1953, quando o então Governador eleito Amaral Peixoto, atendendo aos pedidos do líder angrense em declínio, pré-candidato a Prefeito de Angra no ano seguinte, resolve dispensar em Ato de 6.11.53, publicado a 7 no Diário Oficial, o Técnico de Educação José Augusto da Câmara Torres da função de Chefe da Inspetoria de Ensino da 1ª Região Escolar, transferindo-o no mês seguinte para chefiar a 23ª Inspetoria de Ensino, sediada em Bom Jesus de Itabapoana, no Extremo Norte Fluminense, município geograficamente antípoda a Angra dos Reis. Amaral Peixoto atendeu às pressões de Paula Lobo que não se conformava com a negativa de Câmara Torres ao convite do PSD de retornar às suas fileiras, deixar o novel PSP, e apoiá-lo para a Prefeitura de Angra.

No dia seguinte à publicação da sua transferência para Bom Jesus do Itabapoana, a 8 de novembro de 1953, Câmara Torres distribui contundente Manifesto ao Povo de Angra dos Reis e do Sul do Estado do Rio de Janeiro:

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Coragem, coerência e determinação:
a resposta ao Governo.
(Arquivo Marcelo Câmara)

Câmara Torres, com a mulher e cinco filhos em Angra, requer licença-prêmio a que tem direito. Em Sessão da Câmara Municipal de Angra dos Reis, o Vereador Aureliano Pires da Fonseca apresenta Requerimento registrando gratidão e homenagens do Povo de Angra dos Reis ao Técnico de Educação Câmara Torres, pelo seu importante e revolucionário trabalho no Ensino do Município e Região, transferido da 1ª Inspetoria Escolar Estadual por motivos eminentemente políticos. A Proposta não foi aprovada em função da maioria pessedista da Câmara, com o voto de minerva contrário do Presidente Heitor Chagas da Rocha, e protestos contundentes da minoria, tendo à frente o Vereador Salomon Reseck. Semanas após a remoção de Câmara Torres, a Professora Maria José Brasileiro, nomeada para substituí-lo na Chefia da 1ª Região Escolar, declinou da nomeação, solicitando ao Secretário de Educação a revogação do Ato, alegando “motivos de saúde e profissionais”.

No final de 1953 as professorandas da Escola Normal Everardo Beckenheuser fizeram “Homenagens Especiais” a Câmara Torres e ao Professor Jair Travassos, ambos fundadores do educandário. A 23 de janeiro de 1954, na Convenção do PSP do Estado do Rio de Janeiro, em Niterói, que elegeu o Deputado Federal Paranhos de Oliveira Presidente do Diretório Estadual do Partido, e o Deputado Estadual, Barcelos Martins, Vice-Presidente, Câmara Torres recebeu unânime Moção de Desagravo pelas perseguições que vinha sofrendo do Palácio do Ingá, e foi eleito um dos Membros do Diretório Estadual.


12.1.1954. Câmara Torres discursa na Convenção Estadual do PSP,
na Assembleia Legislativa. Na ocasião recebe Moção de Desagravo, aprovada
por unanimidade,  contra perseguição que sofria do Governador Amaral Peixoto,
do pessedismo. E foi indicado para concorrer, pelo Partido, a Deputado Estadual
nas eleições daquele ano, da qual saiu vitorioso.
(Acervo Marcelo Câmara)

A 1º de março de 1954, Câmara Torres oficia ao Dr. Rubens Falcão, Diretor do Departamento de Educação Pré-Primária e Primária, juntando requerimento, para encaminhamento ao Senhor Governador solicitando “dispensa da Chefia da Inspetoria em Bom Jesus”. Infere-se que o requerimento foi indeferido, pois a 14 de abril, Câmara Torres comunica, de Niterói, ao Doutor Rubens Falcão, que “em virtude do forte temporal que desde a madrugada se abateu sobre a cidade” foi impedido de viajar para assumir a Chefia da 23ª Inspetoria no Norte fluminense. A 1º de junho de 1954, vai ter exercício no Departamento do Ensino Médio, em Niterói. Em seguida, pede licença sem vencimentos para se dedicar à campanha para Deputado Estadual à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Não obstante todas as ações oblíquas de Moacyr de Paula Lobo e do Governador Amaral Peixoto para anular o poder e impedir a candidatura de Câmara Torres nas eleições de 1954, a sua presença em Angra e Região, as manobras do pessedismo foram em vão. Câmara Torres foi eleito Deputado Estadual pelo PSP e o médico perdeu a eleição para prefeito de Angra dos Reis.

A absurda e inconcebível transferência do Técnico de Educação, Doutor Câmara Torres, de Angra dos Reis para Bom Jesus do Itabapoana, motivada, flagrantemente por inaceitável perseguição política de Paula Lobo e Amaral Peixoto, porque ele havia fundado o PSP em Angra dos Reis, ele, egresso do PSD, e a expectativa não ensejava dúvidas sobre a sua eleição à Assembleia Legislativa – geraram não apenas um fato político de repercussão regional, estadual e, mesmo nacional. A Imprensa não engajada com o Governo do PSD fluminense noticiou e criticou severamente o Ato da transferência. Houve críticas e protestos em diversos setores do Estado do Rio de Janeiro: em instituições dos Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, nas esferas federal, estadual e municipal, através da Imprensa e de cartas pessoais de apoio de agentes públicos ao Técnico de Educação; nos ambientes acadêmicos e técnicos da Educação Pública e Particular; centenas de manifestações de repúdio ao Ato do Governador no meio do Ensino Público, de protesto, tristeza do professorado, em todos os níveis, não apenas do Sul Fluminense, mas de todo o Estado, de solidariedade “ao irmão e amigo, Técnico nº 1 do Estado”; na ocasião, as mestras escreveram e disseram: “(...) parte o Técnico Câmara Torres, mas o Doutor José Augusto fica no coração do seu professorado”.

Câmara Torres recebeu centenas de cartas e telegramas de solidariedade, de pessoas pesarosas e indignadas com o Ato do Governador Amaral Peixoto. Até servidores públicos estaduais, em funções de confiança do Governador, telefonaram à residência do Técnico de Educação ou lhe escreveram cartas pessoais lamentando a transferência, o que consideraram “pura perseguição política”, “injustiça”, “tragédia para a Educação Pública do Estado”. Diversas Câmaras Municipais, onde o PSD não era maioria, aprovaram Moções de Repúdio ao Ato de Amaral Peixoto, Requerimentos de solidariedade ao Técnico de Educação, ou aplaudiram pronunciamentos de gratidão e louvor ao trabalho de Câmara Torres e de enfática crítica ao Governo.

Na verdade, a transferência do Técnico de Educação teve motivos eminentemente políticos, porque ele, após fundar o PSP em Angra dos Reis, foi “convidado” e regressar ao PSD, o que declinou, mantendo-se firme na trincheira adhemarista e determinado a se afastar da Chefia da 1ª Inspetoria Escolar para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Isto para o Governo Amaral Peixoto e para o candidato derrotado Paula Lobo, em 1950, desenhou-se como inadmissível.

O Doutor Rubens Falcão, técnico que comandava a Educação Pré-Primária e Primária na Secretaria de Educação e Cultura, do Governo de Amaral Peixoto, superior hierárquico direto do Técnico de Educação, telefonou, de Niterói, para a residência de Câmara Torres em Angra dos Reis. Com Câmara Torres ausente, sua mulher, Dona Tudinha, ouviu de Falcão: “Venho hipotecar minha solidariedade ao José Augusto e lamentar profundamente o que aconteceu. Dizer que estava completamente alheio a tudo, sabendo do se passou em viagem que fazia pelo interior do Estado. Deploro a perda do melhor Técnico de Educação e espero que as consciências dos homens reparem, mais cedo do que se espera, o erro que cometeram.”.

Na Sessão de 3 de agosto de 1953 da Assembleia Legislativa, o Deputado Benigno Fernandes, do PSP, afirmou que o Técnico de Educação, Prof. Câmara Torres, fora transferido da Chefia da Inspetoria da 1ª Região Escolar, “por não querer atender imposições pessedistas locais, de caráter arbitrário e menor. Pura perseguição política”.

O assunto chegou mesmo à Câmara dos Deputados. Um jornal carioca informou que a remoção de Câmara Torres fora motivada por uma carta do Presidente do PSP de Angra dos Reis, Câmara Torres, à Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI – da Câmara, sobre Jogos de Azar que se desenvolvia, carta essa na qual denunciava a livre jogatina no Município de Angra dos Reis, a contravenção desenfreada, sob os olhar complacente da Polícia e demais autoridades municipais e estaduais. A denúncia enfurecera o chefe pessedista local, Paula Lobo, que exigiu, então, do Governador e correligionário Amaral Peixoto, Governador, a saída do “Doutor José”, como era conhecido no meio educacional de Angra dos Reis e Região. Na verdade, a carta denunciando o jogo era apenas um pretexto para tirar Câmara Torres, candidato considerado imbatível à Assembleia.

Acrescentava, ainda, o jornal que, na Sessão da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, de 13 de novembro de 1953, o Deputado Oscar Fonseca (PSP) protestou contra a transferência, atribuindo o Ato do Senhor Governador ao “propósito de prejudicar o funcionário, como represália ao fato de, na qualidade de Presidente do Diretório angrense do Partido Social Progressista, ter denunciado à CPI da Câmara, a livre prática da contravenção em Angra dos Reis”. Informou, ainda, o jornal, que “em longo aparte”, o Líder da UDN, Deputado Estadual Alberto Torres, da Oposição, além de confirmar a informação do Deputado Oscar Fonseca, afirmou que a carta de Câmara Torres havia sido retirada dos trabalhos da CPI, “aliás incompreensivelmente”, pelo Deputado Federal Osvaldo Fonseca, do PTB, “que, por sua vez, a mostrara ao Senhor Paula Lobo. Este conseguira, logo em seguida, a transferência do Senhor Câmara Torres”. Lamentou Alberto Torres que os componentes da CPI não pudessem tornar público certos documentos “considerados sigilosos”. O deputado Oscar Fonseca foi seguido em suas críticas a Amaral Peixoto pelos Deputados Simão Mansur e Mário Vasconcelos. Na Câmara Municipal de Niterói, em Sessão de 12.11.1953, o Vereador Álvaro Caetano discursou contra o Ato do Governador.


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Cópia da carta denunciando a contravenção dos jogos de azar
em Angra dos Reis consentida pelo Governo do PSD
foi o pretexto para transferir o Técnico de Educação
Câmara Torres de Angra dos Reis para o Norte
Fluminense. O objetivo era inviabilizar a sua
candidatura, afastando o servidor de
Angra dos Reis.
(Acervo Marcelo Câmara)

A 12 de novembro de 1953, o Líder do PSP na Assembleia Legislativa, Deputado Felipe da Rocha, acusou “o Governo do Sr. Amaral Peixoto de estar perseguindo os seus correligionários no interior do Estado, principalmente os que são funcionários públicos, que tem sido transferidos dos seus locais de trabalho, como tinha acabado de acontecer com o Técnico de Educação, Sr. Câmara Torres, removido, recentemente, de Angra dos Reis, para o Norte do Estado, por motivos meramente políticos”. O Deputado Simão Mansur, também da Bancada Adhemarista, reforçou as afirmações do seu Líder, declarando que “o Sr. Amaral Peixoto estava, calculadamente, formando um ambiente de terror para as próximas eleições, mas podia ele estar certo de que a corrupção e as falcatruas do PSD iriam terminar justamente aí”. Por outro lado, o udenista Mário Vasconcelos apoiou Mansur, dizendo que “o governador havia afirmado no seu discurso de posse que não perseguiria ninguém por motivos políticos, mas a verdade é que tinha esquecido a sua solene promessa”.

Na Sessão de 22.11.1953 da Assembleia Legislativa os Deputados Felipe da Rocha, Simão Mansur e Mário de Vasconcelos voltaram a denunciar “perseguição aos nossos correligionários do PSP, promovida pelo Governador Amaral Peixoto” com atitudes de politicagem, movidos pelo ódio e desarrazoada paixão politiqueira, contrariando o que prometera em sua posse: não perseguir seus adversários políticos. Simão Mansur destacou que “ao praticar tais atos de vandalismo ao transferir o Doutor Câmara Torres, não perde por esperar, pois responderemos à altura a estes atentados”. Vivia-se a véspera de votação do Orçamento para 1954 e o Povo Fluminense preparava-se para as eleições do novo Governador. “Virá o dia em que seremos governo e daremos uma lição àqueles que, para a desgraça da terra fluminense, ocupam hoje os postos de mando”, declarou Mansur.

O Deputado Federal Osvaldo Fonseca, em novembro de 1953, subiu à Tribuna da Câmara Federal para manifestar a sua surpresa com as declarações do Deputado Estadual Alberto Torres na Assembleia Legislativa do RJ, desmentir o conteúdo do pronunciamento do udenista veiculado pelos jornais, segundo a qual ele havia retirado a carta da CPI. Alegando que há mais de um ano não se avistava com Paula Lobo e também desconhecia os termos da carta de Câmara Torres, solicitou uma “satisfação”, natural ao brilho e ao cavalheirismo do líder udenista, que, segundo o Parlamentar petebista, fora enganado por pessoa que lhe dera a informação, até então, merecedora do seu crédito.

A edição de 4.12.1953, do jornal O Angrense, da Congregação Mariana, sob a direção de Frei Hugo Brasil, personagem histórico da vida angrense nas décadas de 1940 e 1950, noticiou a inauguração do Grupo Escolar Coronel Moreira da Silva, na cidade de Mangaratiba, ocorrido a 11 de novembro daquele ano, titulou em primeira página que a conquista era “obra do Dr. Câmara Torres” e acentuou “a atitude corajosa e digna da primeira diretora da escola que, ao saudar oficialmente o Sr. Governador, em nome do Provo de Mangaratiba”, diante da “multidão que se apinhava nas ruas, não deixou de dizer da revolta que causara entre os mangaratibanos a transferência do Técnico de Educação, José Augusto da Câmara Torres”. A briosa Diretora a que se referia o jornal chamava-se Cordélia Josefina de Magalhães Pahl, competentíssima mestra de gerações de mangaratibanos, que, hoje, tem a sua memória homenageada denominando uma escola municipal, localizada na Serra do Piloto, em Mangaratiba.

Ainda em dezembro de 1953, o Deputado Federal Celso Peçanha, do PTB do Estado do Rio de Janeiro, partido da base parlamentar e política que elegeu e sustentava o Governo Amaral Peixoto, fez veemente pronunciamento narrando todo o episódio da transferência de Câmara Torres, quando denunciou o descabimento e a injustiça do Ato do Governador, tendo em vista a condição do servidor como “o melhor Técnico de Educação do Estado”, e que apresentava um estupendo trabalho de recuperação e progresso da Educação no Extremo Sul do Estado. Considerou a transferência de Câmara Torres uma atitude indigna, pura perseguição política ao então Suplente de Deputado Estadual pelo PSP, que contrariava a biografia e os acertos de Amaral Peixoto à frente do Governo fluminense.

Câmara Torres enviou, de Angra dos Reis, o seguinte telegrama ao Doutor Adhemar de Barros, seu amigo, fundador e Presidente do PSP, com cópias ao Deputado Federal Paranhos de Oliveira (PSP), e ao Presidente do Diretório Estadual, Deputado Estadual Barcelos Martins:

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Comunico eminente chefe e amigo estou sendo vítima perseguição política esta zona com intuito forçar minha retirada este município a fim prejudicar nosso partido e evitar seu desenvolvimento pt Governo Estado está forçando minha apresentação Niterói para ter exercício tendo requerido licença-prêmio ainda não despachada pt Conto apoio Partido momento elementos já derrotados urnas tentam aniquilar nosso trabalho benefício povo sul fluminense desorganizando ensino região onde chefio há doze anos lutando para vencer e onde estou radicado pt Reafirmo minha integral solidariedade PSP e estou disposto campanha todo entusiasmo. Saudações Câmara Torres.
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Vale lembrar de que, três anos antes, Getúlio Vargas, chefe e sogro de Amaral Peixoto voltava à Presidência da República, “nos braços do povo”, na eleição de 1950, com o apoio decisivo que recebera de Adhemar de Barros em São Paulo, onde recebeu 25% dos votos.

Ao Governador Amaral Peixoto foi destinado um Abaixo-Assinado de todas as 155 professoras, sem exceção, da 1ª Região Escolar, formulando “apelo no sentido de revogar o Ato que dispensou de suas funções o Técnico de Educação, Doutor José Augusto da Câmara Torres, em benefício da Região e do Estado”. A 10.12.1953, Câmara Torres enviou cartão pessoal a todas as professoras da 1ª Inspetoria. Escreveu:

À distinta professora, de todo o coração, agradeço a solidariedade com que me honrou sua generosa e sincera amizade, durante os últimos acontecimentos. Fazendo-me às ordens, atenciosamente, Câmara Torres.”

Uma comissão representando as professoras do Extremo Sul Fluminense foi, em caravana, a Niterói, tentar uma audiência com o Governador no Palácio do Ingá, solicitar a revogação do infausto Ato de transferência de Câmara Torres. Foram muito mal recebidas e não conseguiram se avistar com Amaral Peixoto.

O insigne e respeitado Professor Jair Travassos, mestre do Colégio Naval, que, ao lado de Câmara Torres, fundou e mantinha o Ginásio Angrense e a Escola Normal Everardo Bekenhausen, assim expressou, através do jornal O Angrense, de 15.11.53, o seu descontentamento, indignação até, em longo artigo, com a transferência do Técnico de Educação, por Ato de Amaral Peixoto:

(...) Estourou como uma bomba a exoneração desse Pestalozzi do Sul Fluminense, que é Câmara Torres. Tal acontecimento queima-nos no peito qual gilvaz de fogo, lambendo na sua voracidade todo um campo verde, de verdejante mata. O Ato de Sua Excelência, o Sr. Governador do Estado do Rio, não foi só o ato de exonerar; foi, sem, o esfacelamento do um roteiro de ensino público, traçado e construído pela técnica incomparável e inimitável, que é Câmara Torres, a quem este município e esta infância devem tudo o que possuem”. (...) E, hoje, através de trancinhas políticas, de homens que se dizem trabalhar pelo progresso, levam Sua Excelência a cometer esse ato que veio calar bem fundo no espírito da população angrense, contra um homem que tudo tem feito de fato para o bem-estar do povo angrense, numa das partes mais importantes de sua vida, que é a instrução pública. (...) Um povo sem instrução é um povo dado a morrer. Quem virá a substituir Câmara Torres? Virá com o mesmo ideal, com a mesma capacidade, com a mesma competência, com a mesma vontade de enfrentar as ondas revoltas em igaras, para correr semanalmente as escolas do interior angrense sem jamais as ter deixado sem a sua assistência? E essa infância escolar, e essa juventude angrense dirá: Ave Caesar, murituri Te salutant. Salve Cesar, os que vão morrer te saúdam.”

O Prefeito de Mangaratiba, Victor Breves, do mesmo partido do Governador, o PSD, pediu ao Comandante Amaral Peixoto a revogação do Ato de transferência do Técnico de Educação Câmara Torres. O Prefeito defendeu e louvou o trabalho do servidor, que considerava fundamental para o Ensino Público, pois “revolucionou a Educação, promoveu avanços importantes no Ensino Público no Município de Mangaratiba e em todo o Extremo Sul Fluminense”.

Em janeiro de 1954, o Governador Amaral Peixoto foi convidado pelo PSD de Angra dos Reis para uma visita à cidade. A recepção foi um fiasco. Apenas trinta pessoas, nem todas pessedistas, algumas por curiosidade, cercaram a comitiva oficial de oito carros chapas-brancas. O povo não foi recebê-lo, o professorado da Educação Pública – todos em protesto – e até o ex-prefeito Antonico Jordão, do PSD, convidado, insistentemente, por telefone, por um assessor de Amaral, a comparecer ao Palace Hotel a fim de se encontrar com o Governador, se negou a ir, dizendo: “Nada tenho com ele e enquanto ele estiver ligado ao Conselheiro Paula Lobo e ao Prefeito João Gregório Galindo, não o procurarei”.

A eleições de 1954 na Região Sul Fluminense ocorreram com extrema polarização entre o todo poderoso PSD, autoritário, “o Partido dos coronéis”, que contava com a máquina pública municipal e estadual, força e aparelhamento em todos os municípios, e a Coligação PSP-UDN-PTB, construída por Câmara Torres, uma ousadia e desafio político, com muitas lideranças jovens e estreantes. Esta Coligação venceu as eleições municipais em Angra dos Reis e Paraty. Em Rio Claro o PSP se coligou ao PTB, disputando as eleições, com muita coragem e galhardia. O PSP enfrentou ilegalidades, intolerância e até violência de grupos militantes pessedistas.


8.9.1954. Vésperas das eleições em Paraty. Câmara Torres reúne na sede do Diretório do PSP
em Paraty, os líderes Coligação PSP-PTB-UDN. Na foto, com o retrato de Adhemar na parede,
da esq.p/dir.: Câmara Torres, Norival Rubem de Oliveira e Saint-Claire de Bustamante
e Silva (Presidente do Diretório Municipal); Prefeito Derly Ellena (PTB),
Aloysio de Castro (prefeito eleito pelo PSP naquele ano, de braços cruzados)
e José Plínio Rubem de Oliveira, de terno escuro.
(Acervo Marcelo Câmara)

A 4 de julho de 1954, o candidato pelo PSP à Assembleia Legislativa, Câmara Torres, fez “vibrante discurso”, registrou a Imprensa, no comício realizado em Passa Três, Distrito de Itaverá (atual Rio Claro), ao lado do candidato a Governador, Senador Pereira Pinto (UDN), e outros candidatos à Câmara Federal e à Assembleia Legislativa, todos unidos contra a Situação pedessista, comandada pelo Governador Amaral Peixoto. Estiveram no palanque, além de Pereira Pinto e Câmara Torres, o candidato à Câmara Federal Tenório Cavalcanti, e os pretendentes à Assembleia Legislativa Simão Mansur, Alberto Torres e Paulo Mendes, que, também, falaram à população. Venceram as eleições de 1954 Miguel Couto Filho, do PSD, para o Governo do Estado, e Roberto Silveira, do PTB, para Vice-Governador. O Governador Miguel Couto Filho recebeu, depois, o apoio, na Assembleia, do PSP, onde ingressou no final do seu Governo, deixando o PSD, saindo-se vitorioso nas eleições de 1958 para o Senado.

A 2 de outubro de 1954, o candidato da Coligação local PTB-PSP à Prefeitura de Rio Claro, Waldemar Alves de Souza e Silva, escreveu ao então Deputado Federal, da UDN, Tenório Cavalcanti, proprietário do jornal Luta Democrática, que ele fundara naquele ano no Rio de Janeiro, denunciando, a violência amaralista na Região:



ELEIÇÕES

Em 1954, é eleito, pela primeira vez, Deputado Estadual à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro pelo PSP, obtendo 3.190 votos, o vigésimo quinto mais votado, o terceiro do Partido. Foram 54 os eleitos. Somente em Angra dos Reis, obtém 1.647 votos; em Paraty, 661 votos; em Mangaratiba, 200 votos. A 21.1.1955, é diplomado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro – TRE-RJ.

Em 1958, novamente, sufragado por 4.090 eleitores, é um dos mais votados do Estado, o quinto do PSP, que fez uma bancada de oito Parlamentares. E a Coligação PSP-PTB-UDN vence, novamente, em Angra dos Reis e Paraty.

Em 1962, alcançou a primeira Suplência do partido, com 3.194 votos. Mas, imediatamente, já em abril de 1963, assumiu uma cadeira na Assembleia, com o surgimento de uma vaga.


Nas eleições de 1962, Câmara Torres ficou como 1º Suplente
Mas, aberto o Ano Legislativo de 1963, em menos de três meses,
já havia assumido uma cadeira no Parlamento fluminense.
(Acervo Marcelo Câmara)


Em 1966, é eleito com a grande votação de 6.727 votos, agora pela Aliança Renovadora Nacional – ARENA, agremiação que optou após a decretação do fim dos partidos políticos. No pleito foram eleitos 62 candidatos. Câmara Torres foi o 17º mais votado, e, no Partido, o 9º colocado entre os vinte e oito vitoriosos.


26.7.1967. O Deputado Câmara Torres visita as obras  da ponte sobre o Rio da Guarda, na BR-101,
fronteira entre os municípios do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara,  com Itaguaí, Estado do Rio de Janeiro.
(Acervo Marcelo Câmara)

Em 1970, é o único Deputado Estadual da ARENA a concorrer à Câmara Federal. Apesar de, para a época, ter recebido uma expressiva votação de 20.255 eleitores fluminenses, sair largamente vitorioso em todo o Extremo Sul Fluminense, e bem votado em todo o Estado, fica na primeira suplência por quatro anos, desistindo de disputar novos pleitos. Essa derrota de Câmara Torres, para os que viveram aquela eleição, não a absorveram, não a compreendem. Fatos suspeitos e nebulosos, especialmente havidos em Barra Mansa e na Baixada Fluminense, até hoje não devidamente explicados, que povoaram a disputa, intrigam os cronistas, críticos e historiadores.

Passou, então, a se dedicar, quase integralmente, à Advocacia, uma vocação, uma de suas missões. Entretanto, não abandonou, de todo, a Política. Dirigiu diretórios municipais, indicou e apoiou candidatos, com os quais as suas bases, em especial o Extremo Sul Fluminense, se identificava, ajudou aqueles políticos que podiam trazer desenvolvimento e progresso à Região. Assim, participou, influiu, decisivamente, até por volta de 1990, nas eleições estaduais e municipais. Em 1986, sem disputar mandatos há dezesseis anos, alguns líderes comunitários e políticos de Angra dos Reis e Paraty, o lançaram à Assembleia Legislativa. Ele resistiu o quanto pôde, mas acabou disputando as eleições. Sem entusiasmo, sem recursos e com graves problemas de saúde de familiar, conseguiu significativos 5 mil votos pela então impopular, desgastada e decadente ARENA. Em Paraty, foi o mais votado.


Em janeiro de 1968, o Deputado Câmara Torres preside Sessão Solene, na Câmara Municipal de Paraty,
que formaliza Acordo de Cooperação Turística entre o Município e a cidade do Rio de Janeiro,
representada no ato pelo Governador da Guanabara, Negrão de Lima, à esq. do Deputado.
Na foto, discursa o Educador, Engenheiro Mário Moura Brasil do Amaral.
Na extrema esq., o Prefeito Aloisio de Castro.
(Acervo Marcelo Câmara)
Câmara Torres representou, prioritariamente, enquanto Deputado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, em quatro mandatos sucessivos, de 1955 a 1971, o Extremo Sul Fluminense, uma região com baixo número de eleitores e importância política. Chegou a receber, em certos pleitos, em Angra e Paraty, mais de oitenta por cento dos votos válidos, o que, não obstante, não garantia a sua eleição. No entanto, seu nome era sufragado em todos os municípios fluminenses, principalmente pelas professoras e professores, pelos trabalhadores na Educação. Essa façanha, o grande resultado obtido em sua base, somado ao “pinga-pinga” que ocorria nos outros municípios (às vezes, 1 voto em um município distante, quase sempre de uma professora), fazia com que ele, incrivelmente, sem recursos, Homem Público pobre, sem os meios de propaganda possantes e eficazes de seus concorrentes, saísse vitorioso das disputas.

Como nunca teve inimigos na Política, mas apenas adversários e, quase sempre, amigos, no mínimo pessoas que com ele conviviam, o respeitavam e o admiravam – no final de sua vida, de 1971 a 1998, após deixar de exercer mandatos, Câmara Torres foi advogado e ajudou, com a sua liderança e prestígio, de várias formas, todos os que, no passado, haviam sido, seus oponentes partidários e políticos.
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Câmara Torres, no Governo e na Oposição, é sempre o mesmo homem.
Um defensor atuante e intransigente do povo que representa,
 da região que escolheu e a que vive ligado por tantos anos.
Angra dos Reis e Paraty tem nele um representante autorizado e leal.
Conheci-o na oposição e no governo, como correligionário e como adversário,
por isso posso julgá-lo bem. 
E foi com a consciência tranquila que,
também em homenagem à terra dos meus antepassados,
lhe dei o voto nas últimas eleições. Pena que não tivesse sido eleito.
Grande perda para a Política Fluminense."

Ernani do Amaral Peixoto
Militar e engenheiro, foi Interventor no Estado do Rio de Janeiro, Governador,
Deputado Constituinte e Federal, Senador da República por dois mandatos.
Durante a 2ª Grande Guerra foi Presidente de Honra do Comitê Interaliado.
Três vezes Ministro de Estado e Embaixador do Brasil nos Estados Unidos.
Depoimento de 1987, no dia do aniversário de Câmara Torres,
meses após a uma candidatura que ele não desejou,
após dezesseis anos longe das disputas eleitorais.
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O maior, o melhor e mais frequente de todos os amigos de Câmara Torres, amigos da vida inteira, nos bancos escolares, na Universidade, no Magistério, na Política, foi, sem dúvida, DAYL DE ALMEIDA (Dayl do Carmo Guimarães de Almeida – *Rio de Janeiro, DF, 16 de julho de 1918 - †Brasília, DF, 29.1.1990), professor universitário, ativista católico, tribuno, sociólogo, político. Amigo fraterno, muito próximo, leal, incondicional, a partir dos quatorze anos dele e dos quinze de José Augusto, quando se conhecem em Niterói, em março de 1933. Jamais se separaram. Com diferenças no agir e de estilos, há, entre eles, muito mais identidades e convergências do que mínimas diferenças e oposições – na Fé, na Ética, na Moral, na Religião, na Filosofia, na Ideologia e na Ação Política; na maneira de ver, apreender, criticar e construir Cultura; na forma de pensar, enunciar e dizer; de como praticar e dar Educação; na Psicologia individual, familiar e social; de ler, aprender e fazer Arte e Ciência. Eram estudiosos, cultos, católicos, nacionalistas, românticos, abertos ao diálogo e aos debates com todas as correntes de pensamento, e, sempre, anticomunistas. Enfim, como definiu o próprio Dayl, os dois eram “irmãos xifópagos”. Fora da Política Partidária, outro amigo profundamente identificado em ideias e ações intelectuais e políticas com Câmara Torres foi o jornalista, economista, ensaísta, Diretor da Casa Oliveira Viana, Consultor Legislativo do Senado Federal, Anselmo Nogueira Macieira (*Campos, RJ, 5.6.1918 – †Niterói, RJ, 15.7.1994).

OS MAIORES AMIGOS E INTERLOCUTORES
NA POLÍTICA ESTADUAL E FEDERAL

DE CÂMARA TORRES
Além das formalidades dos cargos e funções
(Por ordem alfabética)

Adhemar de Barros, Aécio Nanci, Aluísio Alves, Álvaro Fernandes, Astério Mendonça, Badger Silveira, Aluísio Alves, Dayl de Almeida, Dinarte Mariz, Ernani do Amaral Peixoto e Alzira Vargas do Amaral Peixoto (aliados na década de 1940, depois adversários por anos; a partir dos anos 1980, correligionários e seus eleitores no final da vida), Camilo Silva, Celso Peçanha, Dayl de Almeida, Dinarte Mariz, Durval Gonçalves, Flávio Palmier da Veiga, Geremias de Matos Fontes, Hermes Barcelos, Ivair Nogueira Itagiba, João José Galindo, Jonas Bahiense de Lyra, Jorge Roberto Silveira, José Kezen, José Miguel Olímpio Simões, Márcio Braga, Mário de Abreu, Messias de Moraes Teixeira, Michel Salim Saad, Miguel Couto Filho, Moacyr de Paula Lobo (amigo e correligionário até 1950; após esta data, ferrenho adversário político), Moreira Franco, Nicanor Campanário, Nilo Teixeira Campos, Ordener Veloso, Palmir Silva, Paulo Pfeil, Raul de Oliveira Rodrigues, Roberto Silveira, Roger Malhardes, Saramago Pinheiro, Sebastião Bruno, Togo de Barros, Vasconcelos Torres, Waldenir de Bragança, Walfredo Gurgel, Wilson Peçanha Frederici.



22.6.1960. Feriado em Paraty: 43º aniversário natalício do Deputado Câmara Torres.
Chegam à cidade, para participar das comemorações: o Presidente
da Assembleia Legislativa, Deputado Álvaro Fernandes (PTB),
representando o Governador Roberto Silveira (o segundo da esq. p/direita);
e o Deputado Estadual Saramago Pinheiro (UDN), o quarto na mesma ordem.
Estes dois, grandes amigos e interlocutores de Câmara Torres na vida política.
 O primeiro, na extrema esq., é o Juiz de Direito da Comarca,
Doutor Jorge Peixoto Pache de Faria. Nesse dia, Câmara Torres
recebeu o Título de “Cidadão de Parati”,
o primeiro a ser concedido pela Câmara de Vereadores,na História do Município.
(Acervo Marcelo Câmara)

O grande aliado e amigo de Câmara Torres na Política, talvez o que com ele teve maior identidade, foi o inesquecível líder trabalhista Roberto Teixeira da Silveira, deputado estadual, Secretário do Interior e Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Vice-Governador, Secretário-Geral Nacional do PTB e Governador do Estado do Rio de Janeiro. Quando se formava a Coligação PTB-PSP-UDN-PDC-PR-PSB para as eleições de 1958, o Vice-Governador Roberto Silveira, do PTB, e o Deputado Federal Celso Peçanha, do PSP, pretendiam se candidatar a Governador.


Abril de 1958. Na juventude, muito amigos.
Na Política, correligionários circunstanciais.
 Os Deputados Estadual Câmara Torres e Federal
Celso Peçanha,  ambos do PSP,
caminham no centro de Niterói.
(Acervo Marcelo Câmara)

A tentativa de acordo ocorreu na residência de Câmara Torres, tendo este como mediador. Roberto era amigo e muito próximo de Câmara Torres, e Celso, amigo de juventude, universidade e seu afilhado de casamento. Câmara Torres se empenhou no entendimento, mas Celso não aceitou ser candidato a Vice-Governador de Roberto, deixando o PSP e se filiando ao PSD preferindo ser o Vice na chapa encabeçada por Getúlio Moura. Roberto Silveira e Câmara Torres eram amigos fraternos. Não ficavam mais de três dias sem se falar. Nas viagens de Roberto a outros Estados e ao exterior, Roberto não deixava de enviar antes de viajar e durante a viagem, ao menos, um cartão postal ou telegrama, com uma mensagem a Câmara Torres.


23.7.1960. Marcelo, filho de Câmara Torres, aos dez anos de idade, conversa com Roberto Silveira,
a bordo da lancha Patrício, em viagem na Baía da Ilha Grande,  em direção a Paraty, onde o Governador inaugurou
 a nova usina de geração  de energia elétrica e a rede de distribuição da cidade. E iniciou, oficialmente, as obras da Estrada Paraty-Angra dos Reis. A amizade já existia, pois, em 1958, o menino participara
de comícios e vários eventos da campanha que elegeu o líder trabalhista.
(Acervo Marcelo Câmara)

Roberto Silveira foi também um amigo mais velho do menino Marcelo, filho de Câmara Torres, antes, durante e depois da sua fantástica eleição para o Palácio do Ingá. Algumas vezes, Marcelo participou, ao seu lado, da sua vitoriosa campanha eleitoral e, depois, como Governador fizeram várias viagens juntos. São muitas as fotos que documentam a amizade. Roberto considerava notáveis, precoces, a inteligência e a argúcia do garoto, quando se manifestava sobre Política, História e outros assuntos relacionados ao Estado do Rio. Antes da trágica viagem a Petrópolis que vitimou fatalmente Roberto Silveira, a mãe de Marcelo, Dona Tudinha, atendeu telefonema do Gabinete do Governador, transmitindo convite deste para que Marcelo o acompanhasse. Dona Tudinha agradeceu a distinção e informou que seu filho estava numa fazenda de Rio Claro, RJ, onde costumava passar as férias.




(Foto, em edição)










Marcelo Câmara, aos oito anos,
ao lado de Roberto Silveira em um comício em Niterói.
(Foto:Jornal do Brasil - Acervo Marcelo Câmara)




A amizade entre Roberto Silveira e Câmara Torres era tão verdadeira e sólida que, certa vez, em 1960, numa conversa sem fim entre ambos, no sítio do Líder do PRT fluminense, Doutor Arino de Matos, o Deputado Estadual Daso Coimbra que aguardava para ser recebido pelo Governador, ameaçou, e a Imprensa publicou: “Tua demora me tenta / a ameaçar-te bem fremente: / ou sais de câmara lenta / ou vais pra câmara ardente...”

Em virtude dessa amizade e identidade política, realmente o viés trabalhista das ideias de Câmara Torres aflorou publicamente quando em 1960 a Imprensa e os meios políticos especularam, em vários momentos, sobre a transferência do Deputado do PSP para o PTB de Roberto. Câmara Torres chegou a receber telegramas e telefonemas de “felicitações e aplausos” pela ida para o PTB. Isto despertou um justificável ciúme de muitos trabalhistas, também próximos a Roberto, principalmente o do Deputado Federal, com base Angra dos Reis, o Deputado Federal Jonas Bahiense Lyra, professor, advogado, ex-Promotor de Justiça, amigo e correligionário de Câmara Torres em muitas batalhas políticas. Mas o Líder do PSP na Assembleia, Deputado Durval Gonçalves, afirmou, oficialmente, devido à insistência da Imprensa, que “o Sr. Câmara Torres não é homem de acomodações. Sincero e comedido, se tivesse de deixar o PSP para ingressar numa outra agremiação, comunicaria primeiro a sua decisão à direção regional do nosso partido”. Câmara Torres nunca anunciou sua transferência para o PTB, o que, realmente, não aconteceu.

Outros fraternais amigos de Câmara Torres na Política que também o foram de Marcelo, seu filho: Aécio Nanci, Camilo Silva, Dayl de Almeida (que foi seu padrinho de casamento), Ewaldo Saramago Pinheiro e Flávio Palmier da Veiga.

Os políticos, no âmbito estadual e federal, com os quais Câmara Torres mais mantinha correspondência profissional e pessoal, foram: Adhemar de Barros, Aécio Nanci, Camilo Silva, Dayl de Almeida, Miguel Couto Filho, Roberto Silveira e Saramago Pinheiro.
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